sexta-feira, 11 de março de 2016

Málaga e um panorama geral do sul da Espanha, a Andaluzia

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Málaga e um panorama geral do sul da Espanha, a Andaluzia

Málaga
O sul da Espanha é a minha região favorita do país. A maior parte dos turistas brasileiros se limita a visitar Madrid e Barcelona (às vezes, Zaragoza e Bilbao a caminho da França), mas a Andaluzia pra mim reserva dos elementos mais interessantes da Espanha.

Aqui é a terra do flamenco, de cidades medievais lindas como Granada e Sevilha, e da presença mais pronunciada de toda a herança moura no país. (Para os que perderam essa aula de História, a Península Ibérica foi tomada pelos árabes, com exércitos também de berberes [nativos do norte da África], no ano 711 e teve reinos muçulmanos até 1492. Ou seja, houve mais tempo de domínio árabe [8 séculos] do que tempo decorrido de lá pra cá [5 séculos]. Isso, obviamente, deixou marcas materiais, culturais e genéticas indeléveis na nação espanhola que viria a se formar.)

Os árabes referiam-se à Península Ibérica como Al Ândalus, provavelmente devido à presença aqui dos Vândalos, povo "bárbaro" de origem germânica que habitava aqui — e que, sim, deram origem ao termo "vandalismo", pois os romanos os viam como uns arruaceiros. Os árabes os venceram e, como sua presença seria mais longeva aqui no sul, esta parte da Espanha permaneceu conhecida por Andaluzia.
Arco mourisco nos jardins da fortaleza de Alcazaba, em Málaga. As laranjeiras, como a guitarra, foram trazidas aqui pelos árabes.

A minha viagem cá começou por Málaga, que você talvez conheça de nome, mas que certamente gostará de conhecer melhor. 

A cidade fica na costa sul, e foi seu comércio colonial deu origem ao nome de pimenta malagueta (que, na verdade, é nativa do Peru). Já fama das suas mulheres levou à canção da Malagueña Salerosa, conhecida hoje em dia mais por sua versão da trilha sonora de Kill Bill 2 (2004), mas original de 1947 e já gravada por cantores que vão desde Plácido Domingo a Chitãozinho & Xororó. (A versão mais clássica e aclamada ainda é a do mexicano Miguel Aceves Mejia, "O Rei do Falsete" — assistam e verão por que. A composição também é mexicana.)


Versão clássica mais famosa da canção La Malagueña (1947), conhecida também como Malagueña Salerosa, pelo cantor mexicano Miguel Aceves Mejia, "o rei do falsete". Tente fazer em casa e chame sua namorada pra ver.

Málaga, afora as malagueñas, tem um centro histórico mui agradável onde passear, belíssimas igrejas renascentistas, a impressionante cidadela moura de Alcazaba, e interessantes museus de arte em vidro e pintura. Esta acontece de ser a cidade natal de Pablo Picasso, considerado por muitos o maior pintor do século XX.

Mas visitar a Espanha tem suas curiosidades a que se preparar. O almoço sai às 3h da tarde e o jantar, às 10h da noite. Sem falar na siesta, quando muita coisa fecha nas horas mais calientes da tarde. É uma experiência tanto visual quanto cultural bastante interessante.
Vista de Málaga, hoje uma charmosa cidade portuária de médio porte no sul da Espanha.
Rua principal, pedestrianizada, no centro.
Calçadões repletos de palmeiras, dando um autêntico feeling mediterrâneo ao lugar.
Muitos bares e restaurantes com meses na calçada, como é típico na Europa.

Mas eu cheguei foi à noite, e cidade estava mais assim:
Ruas do centro histórico de Málaga numa noite de outono.
Sua magnífica catedral numa noite enluarada.
Vista à noite da catedral, que mostrarei melhor a seguir.
O meu albergue seria uma agradável acomodação no andar de cima de uma doceria no centro. Um trem te leva facilmente desde o aeroporto até a estação Málaga Maria Zambrano (a principal), e dali a Málaga Centro, na arborizada Alameda Principal e com o centro histórico logo ali. (É onde eu recomendo se hospedar.)

Como a doceria só estaria aberta até a noitinha, resolvi ligar já do aeroporto para avisar que estava a caminho, e que não cancelassem a minha reserva. 

"Vale!", me respondeu a moça espanhola espanholíssima, "Hasta las 8 de la tarde hay alguién, y después puedes llamar la campanilla", me disse ela animada. "Vale" é quase um tique nervoso aqui na Espanha, colocado em quase todas as frases e posto como pergunta confirmatória ao final de qualquer afirmativa. ("Estamos aquí, vale? Entonces tomas en tren, vale, llegas a Málaga Centro, desembarcas por la derecha y caminas hasta el puente, vale?"). E é contagioso. Eu não acerto mais a falar espanhol sem dizer vale o tempo todo, o que sempre levanta olhares quando eu estou pela América Latina, já que por lá não se diz tanto vale assim. A moça que me atendeu na Informação Turística do aeroporto de Málaga era uma simpática morena de olhos mouros e que dava uma explosão de vales enquanto me indicava as coisas no mapa.

Na recepção, após atender a campainha, Alba nos recebeu com simpatia. Uma moça de seus 20 e tantos anos, cabelos cacheados castanhos com pontas pintadas de ruivo. Fez um contraste imenso com a minha experiência anterior, com coroas arrogantes em Madrid há um tempo atrás. Depois de fazer amigos espanhóis ao longo dos últimos anos, minha observação é que as pessoas de menos de 40 anos neste país são incrivelmente mais agradáveis e simpáticas que seus compatriotas de maior idade. Parece-me haver forte diferenciação cultural entre esses jovens descolados, crescidos na era da União Europeia (e da crise financeira) e os seus pais, muitos dos quais ainda carregam aquele ranço arrogante colonialista e a empáfia do espanhol tradicional conservador. Aqui no sul, os jovens parecem mais simpáticos ainda.

Saí para jantar. Às 22:30, era normal na Espanha. Perguntei a Alba que prato era característico de Málaga, ao que ela me disse que era o pescadito frito. Saí pra procurar então o tal do pescadito frito.

Mas no meio do caminho havia uma paella. Havia uma paella no meio do caminho, e com  vinho de brinde. O pescadito frito ficou para depois. Paella é um prato típico da cidade de Valencia, mas estando na Espanha, resolvi aproveitar a oportunidade (Valencia não está tão distante assim), e não me arrependi. Além de uma deliciosa paella, fomos atendidos por um garçom inesquecível. 
A paella no meio do caminho. Pra os que não conhecem, ela é feita com arroz, azeite, e mariscos.
Minha mãe estava comigo nesta viagem. Sentamo-nos numa mesa no exterior, pois mesmo no outono, o sul da Espanha dificilmente faz frio. Só aquele friozinho básico para convidar uma garrafa de vinho. 

No Brasil as pessoas tendem a apreciar vinhos suaves e adocicados, mas na Europa os vinhos de respeito são praticamente todos secos. Minha mãe não foge ao gosto brasileiro e, devo admitir, tem um certo histórico de fazer caretas sem-noção diante de coisas que experimenta e não gosta, sem disfarçar, então confesso que tive certo medo do que ocorreria quando o tal vinho viesse. Ela fez questão de apontar ao garçom que queria um vinho "suave" — tenho minhas dúvidas se ele entendeu. 

Mas seu retorno foi tão performático que uma careta tornou-se impossível. O nosso altivo garçom tinha a pose e a performance de um apto dançarino de tango. Postura elegante, roupa preta, cabelos escuros bem penteados, e aquele típico ar dramático e ligeiramente circunspecto. Fez uma pirueta com o saca-rolhas e, num momento quase romântico embriagado, cheirou a rolha recém sacada da garrafa (com os olhos virando como quem cheira a calcinha da sua amada). Depositou um pouco do vinho no cálice de minha mãe para a degustação e pôs-se ereto como uma sentinela, segurando a garrafa com uma mão, ao aguardo da aprovação do cliente. Minha mãe, coitada, ficou praticamente impossibilitada de qualquer reação outra, diante de tal performance. Eu, com meus botões, ria litros por dentro, de um e do outro.

Com a paella não foi nada diferente, e ele nos serviu como nem os mordomos ingleses do século XIX conseguiriam fazer.
Servidos pelo garçom. Vida boa nas ruas de Málaga à noite.

Mas se você ficou curioso com relação ao pescadito frito, veja-o abaixo. Encontramos ele na noite seguinte. É um prato bem menos glamuroso, mais com cara de petisco de bar. São, basicamente, mariscos vários e peixes pequenos (tipo pititinga) de diversos tamanhos empanados e fritos. Haja estômago.
Um pratão do típico pescadito frito em Málaga. Recebemos (grátis) uma dose de champagne Blue Moscato pra ajudar a digerir. É uma espumante aqui mesmo do sul da Espanha.

Mas pra não dizer que eu só falo de comida e bebida, vamos às atrações de Málaga. Primeiro o interior da catedral. A seguir, a linda fortaleza moura de Alcazaba.
Interior da Santa Iglesia Catedral Basílica de la Encarnación, a estupenda catedral de Málaga, completada em 1782.
Vitrais no alto.
Quadro de martírio na catedral, creio que de São Paulo. 

Não muito distante dali, a entrada para a fortaleza de Alcazaba, no alto de uma colina (al-Qasaba em árabe, que quer dizer algo tipo "cidadela fortificada"). Note que há um elevador na rua lateral, que te leva já às partes mais elevadas dos jardins. É gratuito, mas meio escondido. Pergunte pelo ascensor, e te indicarão.
Um dos pátio internos na Alcazaba, de estilo árabe mouro.
Lindas fontes e arcos. Saudades épicas do Marrocos.
Fonte no centro, com as estruturas de pedra ainda preservadas.
Passadiços lá no alto, com belas vistas.
Numa das janelas.
Jardins lá em cima.
Você pode subir até o topo da colina, até o Castelo de Gibralfaro, se quiser, mas ninguém recomendou (o mais belo é mesmo Alcazaba), então preferi usar o meu tempo zanzando pelo centro da cidade e conferindo outras partes.

Há um bem quisto (top #1 no TripAdvisor) Museo del Vidrio y Cristal de Málaga, mas não achei lá esses balaios todos. É bonito, as pessoas foram muito amáveis, mas é basicamente uma casa particular onde um(a) guia lhe acompanha mostrando utensílios e objetos de decoração em vidro e lhe contando umas histórias. (Humildemente, digo que nem de longe se compara ao sensacional Museu de Vidraria de Teerã, no Irã.)

Há também o museu da Fundación Picasso, do pintor nascido aqui em 1881. (Os malagueños, no entanto, se riem dizendo que ele só fez nascer aqui e assim que pôde foi embora.) Ele em verdade só viveu aqui até os 10 anos de idade. A maior parte de sua vida adulta se passou na França. Suas obras, hoje, estão espalhadas mundo afora, mas algumas se encontram aqui. Não sou o maior fã de pintura contemporânea, mas se você gosta, vale a visita.

(Pra quem curte curiosidades, vale saber que o nome completo do pintor era Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remédios Cipriano de la Santíssima Trinidad Ruiz y Picasso. Era escorpiano. Dizem que nasceu morto, e que foi uma baforada de charuto do médico quando recém-nascido que o fez acordar para a vida.)
Casa museu do malagueño Pablo Picasso.

É assim, com essa mistura de raiz árabe com católico renascentista e umas pitadas de sangre loco que temos o sul da Espanha. Vêm aí ainda Córdoba, a antiga capital do califado medieval espanhol; Granada e seu magnífico palácio de Al-Hambra; e Sevilha, a capital de Andaluzia e capital mundial do flamenco. 


sexta-feira, 4 de março de 2016

Entre ricos e pobres em Lima, Peru

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Passadas as lindas tribulações em Cusco, nas caminhadas no Vale Sagrado dos Incas, e finalmente em Machu Picchu, era chegada a hora de visitar a capital peruana, Lima. 

Lima tem um astral completamente diverso daquele encontrado nos Andes. É Peru, mas um outro ambiente. Não procure mais pelas montanhas, lhamas, nem pelas ruínas incas. Inca, aqui, só mesmo o sangue das pessoas e os seus hábitos culturais (a culinária continua maravilhosa). 

Lima lembra muito o Brasil — inclusive nos seus contrastes. Aqui você vê claramente que há o Peru dos pobres e o Peru dos ricos ocupados com o lançamento do último iPhone. Aquele seu primo que crê num excepcionalismo negativo brasileiro, que vive dizendo "Isso é Brasil"como se certas coisas só existissem aí, faria bem em vir aqui a este lado da fronteira. Ele veria muito do mesmo que há aí, tanto de bom quanto de ruim — só que com toques peruanos.
Lima me lembra um pouco São Paulo.
Comecei pelo lado rico.

Cheguei em Lima num voo desde Cusco, saindo do seu pequeníssimo e excessivamente caloroso aeroporto. (O diacho estava com o ar condicionado defeituoso, e as pessoas amontoavam-se sentadas no chão por falta de espaço. Na fila, "Jesus Evangelista" se abanava na minha frente com o seu cartão de embarque. Esperei que, pra compensar, pudesse sentar-se do meu lado no avião uma bela garota simpática. Mas que nada, veio foi uma senhora espaçosa comendo empanada de carne, cujo cheiro se espalhou por toda parte. Na outra mão, tinha uma garrafa pet de coca-cola, e ao ler ia passando a mão da empanada na língua — igual avó.)

Señor Rafael, da acomodação que reservei, enviou alguém para nos buscar no aeroporto. Sua pousada não tinha fachada, certamente para não pagar impostos. Se você ali chegasse, veria apenas uma residência, sem nome e sem suspeita de haver qualquer atividade comercial. (Señor Rafael era meio chato, daqueles homens de 40 e poucos anos com pinta de técnico de informática e que lhe explicam as coisas como quem se crê muito mais sagaz que os outros.) 

Instalei-me no bairro de Miraflores, uma das áreas mais bonitas de Lima. É onde recomendo se hospedar. Lembra uma Vila Madalena paulistana ou uma Savassi de Belo Horizonte — uma área de classe média alta, limpa, bem conservada, com flores nas praças, e diferente do "grosso" da cidade onde mora o povão. Tem boas lojas, bons restaurantes, shopping, e tudo que o turista gosta. 

É também a única área realmente bonita de Lima.
Como no Brasil, o dinheiro público é seletivo. Limpeza, segurança e asseio são cuidados reservados aos bairros onde há dinheiro.
As avenidas em Miraflores durante o dia.
O Shopping Larcomar, à costa do Oceano Pacífico.
Entardecer no Larcomar.
O Larcomar é um tanto caro, mas tem muitas lojas boas. Ganhei até um recibo premiado no T.G.I. Friday's e voltei pra comer outro prato de camarão.

A comida aqui continua maravilhosa. Há ótimos restaurantes e boa vida noturna em Miraflores. É fácil tomar um pisco sour (drinque peruano e chileno, com suco de limão, clara de ovo batida, e um destilado de uvas), achar um marisco com pimenta huancaína (abaixo), e provar um delicioso suspiro limeño (com clara de ovo batida e leite condensado) de sobremesa. Você aqui come muito bem, e em ambientes agradáveis.
(Favor não ler Las Tetas.) Las Tejas é um dos restaurantes mais legais de Lima. Excelente comida.
Um camarão à pimenta huancaína divino.
Estes são Picaronas, frituras de batata doce com calda de abóbora. Delicioso pra quem gosta de doce. (Você acha também fácil pra comprar na rua, em carrinhos de pipoqueiro.)
E, pra aproveitar a deixa, o suspiro limenho de que falei. Ali embaixo é um creme de leite condensado, coberto pelo creme de clara de ovos.

Lima não tem assim exatamente pontos turísticos imperdíveis a ver — é uma cidade grande com opções de gastronomia, compras, etc. Embora fique no litoral (e na mesma latitude que Salvador, na Bahia), Lima é em geral cinzenta, às vezes faz frio, e carece de praias decentes. O Oceano Pacífico aqui tem águas frias e está longe de oferecer aquela tropicalidade do Nordeste do Brasil.
A praia.
A orla.
Mas quem gosta de alguma coisa histórica, sobretudo igrejas coloniais, pode se interessar em ver o centro de Lima. Vamos à parte pobre. 

Tomando o Metropolitano (não chame de metrô, pois Metro é uma rede de supermercados em Lima e as pessoas poderão lhe dar direções pra onde você não quer ir) em Miraflores você chega até o lindo centro de Lima, onde pode conferir mais de 50 tons de cinza.
As vias de concreto por onde se vai ao centro. Aqui passa o Metropolitano, um sistema de canaletas de ônibus (BRT). (Eu sempre acho tragicamente engraçado quando meus amigos europeus falam da América do Sul como se fosse um lugar super verde, e cidades cheias de árvores beirando a selva. Não sabem que as cidades europeias são mais verdes que as nossas, e que a selva aqui é de pedra.) 
Primeiras vistas do centro de Lima. Repare que até o símbolo do McDonald's (na esquerda da foto) acabou virando preto.
As charmosas ruas do centro de Lima.
Senhor com seu gato num sebo no centro.
A praça principal, com o Palácio de Governo, é uma das salvações.

Passei um dia inteiro caminhando por estas ruas nada encantadoras. Pode não ser bonito, mas eu quis conhecer. Tomei café numa lanchonete que lembra aquelas do centro do Rio de Janeiro e, chegada a hora do almoço, entrei numa birosca para comer. Detrás do balcão, um homem de boné com ar de infelicidade largou seu rádio e veio nos atender. Foi gentil — embora seu refinamento fosse de pedreiro gentil. Nas paredes verdes, um armário de garrafas (de vidro) de coca-cola e inca cola dividia espaço com um retrato de Jesus e uma caixa de primeiros socorros. De uma portinhola ao fundo, uma mulher despachava os pratos.

Pedi uma sopa de peixe com batatas e pimenta. Grátis vinha um refresco ralo, que eu nem sei de que foi, numa canecas toda molhada como a mão dele quando bateu na mesa como quem entrega chopp. 

Na minha frente, um rapazinho com cara de ajudante de obras parecia comer a mesma coisa. Pombos entravam na birosca à vontade, a quem o rapaz sem cerimônia nenhuma jogava pedaços de comida no chão.  
A birosca, com o rapaz amigo dos pombos.
Balcão com o senhor ali atrás ouvindo rádio, e o outro senhor na parede.
A minha deliciosa sopa de peixe. (Mentira, foi uma das sopas mais tenebrosas que já tomei, talvez só comparável à sopa de grama que tomei na Bielorrússia. Certa hora vi boiando algo que pensei ser um caroço de limão, até que me dei conta de que era um dos olhos do peixe.) 
Após esse épico almoço, fui ao histórico santuário de Santa Rosa de Lima para me depurar. Há igrejinhas barrocas muito bonitinhas no centro de Lima (das poucas coisas realmente merecedoras de visita turística ali). Na rua, há uma longa seleção de casas de cartomantes, incensos variados, artigos de "santería" e todo sorte de coisas que ilustram o característico sincretismo religioso latino-americano. 
Uma rua bonitinha no centro.
No aprazível santuário de Santa Rosa de Lima, no centro da capital. Santa Rosa foi a primeira pessoa do continente americano a ser canonizada.
Fronte da Basílica de São Marcelo, também no centro.
Lojas vendendo produtos espirituais de toda sorte, aqui com este notável anúncio de serviço.

No fim das contas, Lima é a cara do Brasil, esta mesma cara latino-americana. 
Eu voltaria a Lima antes do imaginado (e pretendido). Embora não seja lá esse balaio, não deixa de sempre ser um destino gastronômico agradável. Concluía, por ora, a minha andança pelos Andes.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Mairon vai a Machu Picchu

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Eis a famosa. Repare na miudeza das pessoas na foto.

Machu Picchu, a cidade perdida dos incas. Este é talvez o mais famoso e místico destino na América do Sul. É também a mais popular trilha das Américas, para aqueles que curtem caminhar na selva. O que torna Machu Picchu especial e diferente de outras regiões de montanha é que aqui você tem muito verde, não apenas rochas, e tem todo o misticismo que cerca os incas. Em poucos outros lugares do mundo você encontrará ruínas assim tão bem conservadas, e rodeadas do povo que as construíram.

Machu Picchu foi (re)descoberta em 1911 pelo explorador norte-americano Hiram Bingham. Por séculos ficou abandonada na floresta, embora algumas versões digam que camponeses viviam na região. O certo é que os habitantes deste interior do Peru, que são quase todos de origem indígena, sempre souberam de Machu Picchu (que, na língua quíchua, quer dizer "Velho Pico"). Foram eles que levaram até lá o explorador norte-americano que então publicaria sua descoberta da "cidade perdida dos incas", lançando-a às capas da National Geographic e à fama internacional.

(Para quem gosta de entender as coisas em contexto, vale saber que nesse período do século XIX e começo do XX, os Estados Unidos estavam tentando fortemente se impor num mundo então dominado pela Europa. Essa foi a época do Orientalismo, de europeus fascinando-se e estereotipando as civilizações antigas — egípcios, árabes, turcos, indianos — que conquistavam em seu imperialismo na África e na Ásia. Os Estados Unidos, não querendo ficar para trás, lançaram-se então para explorar o que havia das civilizações americanas pré-colombianas. Chamaram, ainda no século XIX, os Mayas da América Central e do México de "O Egito Americano". E, pouco depois, alardeariam suas descobertas sobre os incas. Trabalho arqueológico interessante, mas não deixem de perceber também a dimensão simbólica da coisa. Esses estudos sempre trabalharam estereotipando tais povos "tradicionais", tratados como irremediavelmente conservadores — e, portanto, a-históricos — em contraste à enaltecida civilização ocidental, baseada na razão. Dessa mesma matriz surgiram preconceitos mui atuais, como tratar de "filosofia" apenas o pensamento "ocidental", leia-se de pensadores europeus ou anglo-americanos, e de achar que índio ou árabe não muda, pois são vistos como povos irremediavelmente tradicionais.)    

Voltemos a Machu Picchu. Vamos primeiro à logística para os interessados em vir, antes de eu narrar a minha visita.
Visitar Machu Picchu é trabalhoso, e requer atenção. Não estou me referindo às longas e íngremes escadarias de pedra, mas à burocracia. Como este é um sítio de conservação natural e arqueológica, a visitação é limitada a alguns milhares de pessoas por dia. Pode parecer muito, mas não é. As entradas muitas vezes se esgotam semanas antes, sobretudo na alta estação (a estação seca, de junho a agosto). Para fazer a trilha que chega a Machu Picchu a pé o limite é ainda menor, de apenas 400 pessoas, então é necessário comprar com meses de antecedência. Planejar é fundamental.

A compra se dá no site oficial do governo peruano (http://www.machupicchu.gob.pe). Atualmente estão aceitando pagamento online com cartão de crédito, mas às vezes não funciona. Quando eu fui, esse serviço estava suspenso; era necessário reservar online e depois fazer um depósito identificado no Banco Nacional Peruano (o que complica se você não estiver fisicamente no Peru para isso). Mas como fui na baixa estação (novembro, que tem certo risco de chuva), consegui comprar entradas em Cusco diretamente no Instituto Nacional de Cultura poucos dias antes. O site oficial lhe diz quantas vagas ainda restam pra cada dia. O preço, seja qual for o procedimento, é de 128 soles peruanos por pessoa (em 2016), ou aproximadamente R$ 140. Lembre que não é possível comprar o ingresso na entrada.

Agora falta o transporte. A menos que você faça a trilha inca de alguns dias, será preciso chegar — de trem ou ônibus — ao povoado de Aguas Calientes, à beira de Machu Picchu. (Oficialmente, mudaram seu nome para Machu Picchu pueblo, então atente se for comprar passagens online.) De lá você pode: subir algumas horas de caminhada até a entrada de Machu Picchu (não recomendado), ou tomar um ônibus espertamente cotado em dólares (US$ 9 por pessoa, quando eu fui) e que te deixa nos portões de Machu Picchu em 20 minutos. 

Embora o ônibus seja caro, acho que ele vale a pena. Na minha opinião, Machu Picchu já exige bastante das pernas. Além disso, ao invés de gastar as preciosas horas da manhã subindo beira de estrada, talvez melhor seja entrar em Machu Picchu logo no começo da manhã, quando há menos gente e não tem aquele sol de meio-dia na sua cabeça. Foi o que eu fiz.
Aquela estradinha em ziguezague é a que leva de Machu Picchu ao povoado de Aguas Calientes, rio abaixo. Você escolhe entre 20min de ônibus ou algumas horas de caminhada. Eu preferi guardar as energias para a visita às ruínas.

E para chegar até Aguas Calientes? Há ônibus e trens. Se optar pelo trem, certifique-se de comprar suas passagens bem antecipadamente, pois lota rápido. (Ver mais sobre isso em No Andean Explorer, o charmoso trem pelo interior do Peru.) A PeruRail tem serviços desde Cusco ou desde Ollantaytambo, inclusive o caríssimo trem de luxo Hiram Bingham (sim, batizado com o nome do historiador). Mas não vi sentido em pagar tanto por luxo se o atrativo principal da viagem é a vista. Acho que o trem poderia oferecer até show de strippers, e ainda assim a sua a atenção se desviaria para a paisagem montanhosa. 

Há quem durma em Aguas Calientes, mas eu não vi nada aqui que merecesse isso, a menos que você tenha chegado a pé — só há barracas vendendo souvenirs e restaurantes para turista. Por outro lado, se você sair de Cusco, levará 2h até Aguas Calientes e provavelmente chegará a Machu Picchu quase na hora do almoço. Bad idea. Eu preferi um meio termo; optei por dormir na aconchegante Ollantaytambo, e tomar um trem de manhã cedo que chega em 30 minutos a Aguas Calientes — te permitindo já estar em Machu Picchu ainda nas primeiras horas de sol.  

Uma última observação prática: não é permitido comer nas ruínas, e você vai passar horas lá dentro, então alimente-se bem antes de ir. Na entrada há comida e bebida, mas tudo é caríssimo (R$10 a água mineral), então é uma boa ideia levar lanches para antes de entrar e/ou depois de sair. Água você pode levar, e leve bastante, pois você vai suar, e dentro não há nada. É permitido sair e entrar de novo com o mesmo ingresso no mesmo dia, mas dado o tamanho da escadaria de entrada, é improvável você terá vontade de subir tudo outra vez depois de descer. Vá por mim. Entre de uma vez, cedo, e veja tudo o que puder.
Trem da PeruRail a caminho de Machu Picchu.
Era mesmo bastante cedo quando eu acordei em Ollantaytambo, os primeiros raios de sol apenas começando a tirar a escuridão da noite e a revelar as nuvens e montanhas ao redor da vila. Infelizmente, tive que sair antes da hora do café da manhã. Na rua, apenas vendedores estavam à vista, começando a montar suas barraquinhas em preparação à vindoura horda de turistas. Apressei-me pra a estação de trem, a 15 minutos de onde eu estava. 
Praça em Ollantaytambo no início da manhã.
Os vendedores começando a montar suas barracas simples. Cedeiros, como outras gentes trabalhadoras mundo afora.
Quase na estação de trem, a presença de barracas de souvenirs se intensificava. Começavam também a aparecer outros viajantes.
Na estação de Ollantaytambo, prestes a tomar o trem pra Machu Picchu.
A viagem de trem para Machu Picchu é curta, e muito boa. Qualquer trem tem "teto solar" que te permite ver a paisagem através do vidro, além de pelas janelas. Lindas vistas de montanhas cobertas de verde. (O interior do trem em si é também decorado com temas incas.)
Interior do trem de Ollantaytambo a Aguas Calientes.
Chegada do trem em Aguas Calientes, e ali a bilheteria para as passagens de ônibus.
As lindas vistas que você tem do ônibus, ziguezagueando na estradinha à beira do abismo. Ele te deixa basicamente nos portões de entrada para as ruínas.
Aqui o ônibus te deixa. Entrada para Machu Picchu. Prepare as pernas.
A apoteose lá em cima. Ou melhor, só o começo da visita.
A vista de lá é magnífica. A sensação, melhor ainda. Você leva um tempo internalizando "estou em Machu Picchu", e inevitavelmente se pergunta se atende às suas expectativas, se é tão impressionante quanto você imaginava. A minha resposta foi um retumbante "Sim", mas a sensação você não consegue imaginar antes de vir. Sentir-se envelopado naquelas montanhas verdes, absorvido naquele ambiente, é indescritível.

Agora prepare-se pra caminhar. Os antigos incas deviam ter um físico fenomenal, pois haja escadas, e com degraus bastante altos. 

O sítio principal fica logo ali, uma vila construída por volta de 1450 pelos incas. Foi abandonada cerca de 100 anos depois, devido à epidemia de varíola, e os espanhóis nunca a descobriram. Assim foi preservada. Ainda é possível ver muitas das casas, espaços de estocagem de alimentos, etc. O mais fabuloso é imaginar isso aqui cheio de vida, com incas pra lá e pra cá, percorrendo as montanhas.
Imagine acordar de manhã numa casa dessas e ter esse horizonte.
Escadas...
Algumas lhamas que puseram ali para integrar o ambiente.
Caminhos por Machu Picchu.
Entrando nas casas.
Dei muita sorte de ter um dia de sol. Não quero imaginar isso com chuva. Muito menos o caminho que eu tomaria a seguir, rumo à Porta do Sol. 

Foram 2h pra ir e mais 1,5h pra voltar (pois a ida é subindo). A Intipunku, ou Porta do Sol, é na verdade a entrada para aqueles que aqui chegam pela trilha inca. Uma ruína modesta, mas um caminho inesquecível. As vistas (e a sensação) que você tem, trilhando à beira do abismo, são fabulosas. 
O caminho entre Machu Picchu e a Porta do Sol.
Alguns trechos são assim.
A vista que te acompanha.
Relaxando lá no alto. (Só não podia pegar no sono.) 
As ruínas da Porta do Sol. São simples, mas lembre-se daquele ditado de que o que importa não é o destino, mas a viagem.

Duas coisas engraçadas. A primeira é que eu não fazia ideia da distância desse percurso até percorrê-lo. Na ida, perguntávamos frequentemente a quem estava voltando: "E aí, quanto falta pra chegar?". E as respostas variavam enormemente; os anglófonos e os franceses diziam "uma hora e pouco" nos mesmos lugares onde os espanhóis e latino-americanos diziam "só mais uma meia horinha", com exagerado otimismo. Achei comicamente sintomático dos nossos eufemismos (e consequente falta de pontualidade). Uns 10 minutinhos e eu tô chegando aí. 

A outra coisa foi quando cruzamos com um jovem inglês que vinha já boiando, até que viu a minha mãe, aos quase 70 anos, seguindo firme em frente. "Ok, now that's embarrassing. I suddenly feel motivated again." [Ok, aí já é constrangedor. De repente estou motivado novamente.] Eu ri, ele seguiu adiante, e depois eu contei a minha mãe o que ele havia dito.

Umas cinco horas depois, era hora de terminar a visita. Após retornar da Porta do Sol, ainda circulamos mais e dei uns bordejos por conta própria, mas com o tempo eu também já estava atrás de um descanso — e comida. Estávamos satisfeitos. Além do mais, tínhamos passagens pra um trem de volta a Cusco aquela tarde. Um voo pra Lima nos aguardava no dia seguinte.
  
A 2.700m, Machu Picchu pode não ter sido o mais elevado, mas fica definitivamente como o ponto mais alto desta viagem.