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No Parque Saint Stephen, em Dublin. |
O nosso capitão mui irlandês se chamava John O'Connor, nome de protagonista de filme de ação (quase John Connor, o personagem de Exterminador do Futuro). Uma hora e meia depois da decolagem em Amsterdã, chegávamos a Dublin, a simpática capital da República da Irlanda.
Um branco gordão, careca e com atitude de ogro — que parecia já saturado do que estava fazendo e nem olhou pra a minha cara — perguntou quantos dias eu iria ficar, carimbou o meu passaporte, e mandou seguir.
Era inverno, e do lado de fora do aeroporto reinava uma paisagem nublada, onde o céu, o cimento do chão e as estruturas de metal tinham todos tons de cinza. Típico ambiente desta parte da Europa.
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O cinza que impera. Imagine aí a atmosfera quieta, em que você ouve mais o vento e a chuva que pessoas. |
A segunda observação é que parece haver mais brasileiros que irlandeses em Dublin. (Ok, um leve exagero.) Mas você se impressionará com a quantidade de jovens tupiniquins na rua, sobretudo estudantes. Na minha fila da imigração no aeroporto havia tantos estudantes brasileiros que a segurança pediu que aqueles chegando para estudo formassem uma fila separada, pois estavam atrasando os turistas (como eu), que passam por uma checagem mais rápida.
Ao chegar no albergue, eu não deveria ter ficado surpreso ao descobrir que vários dos meus colegas de dormitório eram brasileiros. Vários deles ficando lá enquanto procuravam uma acomodação mais permanente. Quando eu entrei no dormitório lá encontrei um catarinense, Marciano. (Era o nome dele — e, não, ele não era verde.)
Saí com o Marciano pela rua para explorar o centro de Dublin e comermos algo. Marciano nunca havia saído do Brasil, e estava fascinado por pisar em solo europeu. Eu, a esta altura já morando há mais de cinco anos no norte da Europa e habituado àquelas ruas quietas, cinzas, frias e molhadas como o meu cotidiano, não consegui deixar de achar aquilo curioso, como quando você mora na praia e assiste à reação de alguém que vê o mar pela primeira vez. Fiquei sorrindo sozinho enquanto caminhávamos.
Levei Marciano pra comer um prato tailandês numa das cosmopolitas cafeterias dessa região da Europa. Ele ficou fascinado pela ideia de comida tailandesa, mas não curtiu muito o sabor.
Até hoje eu me lembro da música de "rock cristão" que era o despertador dele toda manhã — e que, obviamente, também me despertava. (Flyleaf - All around me, caso alguém esteja curioso.) Até hoje quando escuto a música, ela me evoca aquelas manhãs frias, cinzentas e paradas do inverno irlandês.
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Jeitão geral das ruas. |
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À margem do Rio Liffey, que corta a cidade, numa daquelas quietas tardes de inverno. |
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Minha mesa de trabalho. Café com doce e uma cumbuca cheia de iogurte com geléia e cereal. Dá fome só de olhar. |
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Vitrines tentadoras nestes cafés. (Este, pra quem quiser a dica, é o KC Peaches, no centro de Dublin.) Não vejo muito na comida britânica e irlandesa, mas as cafeterias merecem aplauso. |
No próximo post eu relato as minhas visitas às principais atrações de Dublin, mas quero ainda neste post terminar de "apresentar" o país e relatar a minha ida a um concerto de dança irlandesa e música celta, num bar.
Os irlandeses têm um orgulho imenso de verem-se como os naturais descendentes da cultura celta. Esse é talvez o principal elemento de sua identidade nacional. (Conferir ao gaélico o status de língua oficial é um ato mais simbólico que prático, já que quase ninguém o fala.) Eles aqui adoram aquele astral festivo com que vemos a cultura celta, aquela atitude despreocupada, do curtir uma vida simples e alegre.
Eles adoram também o lado "mágico" da cultura celta, onde estão as raízes do Wicca e do movimento New Age contemporâneo (onde se inserem cantoras como Enya e Loreena McKennitt). Não é à toa que obras popularíssimas como Harry Potter e O Senhor dos Anéis representam elementos da cultura celta e sua mitologia. Os irlandeses devem ver os hobbits sossegados e dançantes como típicas representações do seu ideal. (De fato, o inglês Tolkien era um crítico ferrenho da industrialização que tanto transformou a Grã-Bretanha e a Irlanda, e era nostálgico daquele passado idílico. Você pode ver como, na obra de O Senhor dos Anéis, o industrializador mago Saruman que devasta florestas para usar como lenha é um dos vilões.)
Mas vamos ao bar, e às músicas. O pub — bar de estilo fechado, geralmente com mesas de madeira e ambiente escuro — é uma das instituições mais características de todas na Irlanda e na Grã-Bretanha. Nada mais natural, portanto, que seja o lugar onde as apresentações culturais "de raiz" ocorrem.
Música instrumental irlandesa, de clara raiz celta.
Neste abaixo há uma palhinha da dança irlandesa, que não é nada fácil. Em O Senhor dos Anéis você vê os hobbits fazerem um pouco desta dança alegre e saltitante.
Aqui outra com mais umas belas moçoilas. Se reparar bem, você verá também influências depois passadas à música country dos Estados Unidos, pra onde emigraram milhões de irlandeses.
No fuzuê do pub, chegou a minha sopa de batata. É bem aquela comida de hobbit mesmo: batatas cozidas com ervas, peixe assado com maçãs e legumes... não é má, mas não espere nada condimentado ou de sabor muito forte. (Não estamos na Índia.)
A garçonete, me vendo tomar algumas notas, perguntou-me se eu era escritor. Respondi que sim.
Eles aqui na Irlanda tem um respeito imenso por literatura. Talvez o gosto por contar histórias e por fantasia os influencie tanto. Ainda que você considere que o Prêmio Nobel de Literatura é enviesado e eurocêntrico (e é mesmo), a Irlanda desponta na Europa como o país que mais tem títulos per capita: 4 prêmios Nobel de literatura (Seamus Heaney, Samuel Beckett, W.B. Yeats, e George Bernard Shaw) numa população de pouco mais de 4 milhões de habitantes — menos que a cidade do Rio de Janeiro. Isso sem falar em outros autores renomados mais antigos como James Joyce (Ulysses), Bram Stoker (Drácula), Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Grey), e Jonathan Swift (As Viagens de Gulliver). Claramente uma sociedade de forte paixão literária.
No post seguinte eu conto mais do que vi em Dublin, antes de rumar para outras partes do país.
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