sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Ollantaytambo e o Vale Sagrado dos Incas

O vale do Rio Urubamba, mais conhecido como o Vale Sagrado dos Incas, recorta a porção sudeste dos Andes peruanos, onde as montanhas já começam a se aproximar da Amazônia. Ainda não há, é claro, traços da exuberante selva que se encontra quilômetros mais adiante; mas tampouco há a secura do oeste peruano. Aqui, neste vale, os incas cultivaram milho desde muito antes da chegada dos espanhóis. Outros indígenas já o faziam muito antes da chegada dos incas aqui. 

O vale é uma riqueza de visuais, com paisagens naturais magníficas pontuadas por vilarejos de origem inca aqui e ali. O Rio Urubamba em si é modesto, nada a se comparar aos rios amazônicos. Porém, ele deu — e ainda dá — a vida a uma das regiões mais lindas do Peru.
Cultivo milenar do milho na região. (Percebam a miudeza do ônibus na imensidão da paisagem.)
Vista no alto para as montanhas e os terraços em degraus, construídos pelos incas. Esses terraços podiam servir para cultivo, com a técnica de fazer a mesma água da chuva descer gradativamente e irrigando tudo, em vez de em torrente. 
Construções incas no alto. Nenhuma civilização se acostumou ao sobe-e-desce tanto quanto os incas. Imagine percorrer estas alturas (e com pouco oxigênio, pois estamos a mais de 3.000m).
Você se sente um ponto na imensidão.
A forma mais fácil de chegar ao Vale Sagrado dos Incas é a partir de Cusco. Foi o que fiz. So que, em vez de pegar o passeio de 1 dia inteiro que retorna a Cusco, resolvi que não voltaria; ficaria em Ollantaytambo, um vilarejo (que foi minha parada favorita neste vale) já nas proximidades de Machu Picchu. Lá eu pernoitaria para no dia seguinte ir à famosa "cidade perdida dos incas". 

Tivemos muita sorte de a chuva nesse dia dar uma trégua. A melança é grande quando chove, como você pode supor pelo visual das fotos. A subidas se tornariam ainda mais problemáticas. É preciso ter pernas.

Sua viagem terá breves paradas aqui e ali, com tempo livre para explorar as ruínas nas alturas e — se quiser — fazer compras. Este é um roteiro bem turístico, e há portanto vendedores de souvenirs andinos por toda parte. A cada parada onde o ônibus estaciona, há barraquinhas e ambulantes vendendo milho cozido (de diferentes tipos!), batata com molho tradicional apimentado, roupas de alpaca (ou não; leia aqui para saber diferenciar), bolsas de tecido, etc. 
Como você pode ver, os lugares (e as pessoas) são bastante pobres e simples.
Acho que paguei R$ 2 nesse pratinho de batata e ovo cozidos regados com uma salsa picante por cima. A batata ficou meio seca depois a salsa acabou, mas deu pra complementar o café da manhã.

Com o tempo eu percebi que não era o único brasileiro do grupo. Encontrei uma curitibana morena que estava viajando solo, e nos ajudamos com as fotos. Mais adiante, comprando trufas de maracujá numa parada, percebi que a vendedora era brasileira também, uma loira de Salvador que veio ao Peru e nunca mais voltou ao Brasil. "Uma energia dessas. Eu vim pra cá e nunca mais saí.", disse-me a conterrânea de tranças no cabelo e trufas deliciosas. 
Vendedoras fazendo marcação.
Com a vista ao fundo.
Chegaríamos a Ollantaytambo no meio da tarde. Como o vilarejo fica "escondido" entre as montanhas, o pôr do sol acontece bem cedo. É fundamental chegar aqui antes dele, senão você não enxerga mais nada. Há escadarias imensas do tempo dos incas subindo a montanha, assim como mirantes e passadiços lá no alto.

Acho que nunca estive num lugar mais "Indiana Jones".
Eis as escadas, rumo à luz.
Eis a vila, entre as montanhas.
E eis as alturas, com os miúdos caminhantes ali.
Você passa bem umas duas horas circulando lá por cima, se não mais. É preciso pagar pra entrar, mas o preço é modesto, e vale muito a pena. Eu já disse que prepare as pernas? 
Subir, subir.
As formiguinhas rumando ao alto.
E, no alto, edificações dos tempos dos incas. 
Pausa para um descanso...
... e gaiatices fotográficas, mirando o pôr do sol lá do alto.
A luz já deixando Ollantaytambo ao final da tarde.
Depois de vasculhar antigas casas de estocagem, postos de observação, e caminhos pelo alto das montanhas — e depois se sentir miúdo nessa imensidão montanhosa — a noite cobre tudo e você não vê mais nada. Nem se dará conta das gigantes que o circundam.

Aquela formação na parte baixa da foto acima são barracas de souvenirs. Elas lotam aquela praça principal de Ollantaytambo, mas vão todos embora assim que o sol se põe e que os turistas partem.

Peguei minha mãe, que estava aguardando lá embaixo, e peguei também uma deliciosa Inca Cola para refrescar. (Mentira que não é deliciosa, o troço é ruim pra diacho, com um gosto artificial que lembra chiclete e uma cor amarelo-ácido-de-bateria. Mas quebra o galho.)  
Tomando Inca Cola. (A cara não foi proposital. Esta foto foi tirada sem o meu consentimento. O alívio é autêntico. Beba Inca Cola.)
Meninada vestida com trajes tradicionais da região na feirinha.
Terminado o dia, despedimo-nos do restante do grupo e ficamos para pernoitar aqui em Ollantaytambo. Em retrospecto, acho até que poderíamos ter passado um pouquinho mais de tempo nesse vilarejo. 

Você pode pensar que, terminado o sol, terminou o espetáculo. Mas Ollantaytambo é bem bonitinha, toda de ruas e regos e calçamento e aquedutos feitos pelos incas nos séculos XIV e XV, e com casas que conservam até hoje suas sólidas bases de rocha maciça.  
Ruas do vilarejo de Ollantaytambo. (Me disseram que ficasse de olhos abertos se perambulasse à noite por corredores estreitos, mas não cheguei a sentir risco.) 
As casas com suas fundações inteiras feitas no tempo dos incas. 
Arcadas seculares que hoje servem de entrada a restaurantes.

No final das contas, achei Ollantaytambo um vilarejo muy precioso, como gostam de dizer em espanhol. De quebra, é cheio de albergues, hostels e pousadas fofinhas. (A que ficamos tinha jardim, quintal com plantas e rochedos, etc.) E não são caras. 

Chegando a noite, o pretume vai se formando onde antes havia as montanhas. O recorte fica delineado pelo céu, cuja cor vai se transformando mais devagar. A melhor decisão foi pernoitar aqui antes de ir a Machu Picchu, aqui perto. Entre cá e lá uma pizza, e a noite a ser admirada no céu.
Uma outra praça de Ollantaytambo ao anoitecer.



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Em Cusco, a antiga capital inca e o umbigo do mundo

Estátua do imperador Pachacúti (1438-1471) na praça principal da cidade de Cusco, a antiga capital inca.

O mundo estava acabando quando chegamos a Cusco. Ao final das oito horas de viagem de trem no Andean Explorer, a chuva engrossou tremendamente, até virar um daqueles acaba-mundo.

A estação de trem de Cusco é minúscula. Fora da grade, e em todos os arredores após a área restrita para desembarque, motoristas de táxi amontoavam-se irrequietos e gritando famintos em nossa direção tais quais zumbis de The Walking Dead.


Não havia outra opção senão render-se à sua sanha. Tentei, inutilmente, descobrir se haveria um ônibus ou alguma forma de transporte coletivo. Mas, estamos na América Latina, e uma de nossas muitas infelicidades é depender quase que exclusivamente de automóvel para se deslocar. Rendi-me a um taxista. A chuva era tamanha que explorar as ruas no exterior da estação — ainda por cima à noite — estava fora de cogitação. Sempre detesto tomar táxi em cidades que desconheço, pois invariavelmente enrolam, e desta vez não foi diferente.


Nas ruas, corredeiras de água da chuva pareciam transformar-se em verdadeiras torrentes com o volume e a inclinação íngreme das ruas 
— parecia que derrubariam até as suas pernas, se lhe encontrassem pela frente. Do lado de dentro, o taxista já falava de querer o pagamento antes de parar o carro. Reconheçamos: os táxis no Peru são baratíssimos, coisa de R$ 5 uma corrida. É a insegurança da malandragem que incomoda, e saber que você está nas mãos dele.

Paguei, e ele parou o carro para eu retirar a bagagem que tolamente deixei no porta-malas. Por sorte, não deu nada. Paguei a merreca de 7 soles em vez de 5 (praticamente o mesmo em reais), molhei-me até a alma, e buzinei à porta do albergue dizendo que tinha uma reserva.

A minha rua, seca no outro dia de manhã, como se nada tivesse acontecido.
Como você pode ver, Cusco é uma cidade pobre. Não se iluda com as fotos pitorescas que os sites de viagens lhe mostram — há, sim, aquele centrinho histórico bonitinho, mas o grosso da cidade é "popular" dessa forma aí. Cusco hoje é uma cidade de quase meio milhão de habitantes (pobres).

Algum tempo se passou desde que, nos idos de 1200, os incas chegaram aqui "fugidos" de um desastre natural nas margens do Lago Titicaca. Assim conta a origem mítica do Império Inca, que quatro irmãos e quatro irmãos deixaram aquela região após uma hecatombe climática e migraram para cá, para a cidade então chamada de Qusqu. O nome vem de qusqu wanka, ou "Pedra da Coruja", e a cidade já era habitada pelo povo Killke desde o ano 900. Há datação com carbono-14 de muralhas de 1100 aqui, portanto pré-inca. Algumas delas permanecem visitáveis, como a impressionante cidadela de Saksaywaman.

Ruínas de Saksaywaman, cidadela a 3.700m de altitude que os incas tomaram dos Killke no século XIII e construíram por cima. A maioria dessas edificações — inclusive com aquedutos que você vê na foto — são da época inca. 
Aqui ocorreu uma das últimas batalhas entre incas e conquistadores espanhóis. Cronistas da época falam em torres de pedra, terraços abertos para cerimônias e uso militar, e dezenas de amplos salões para estocagem de armas e suprimentos. Saksaywaman caiu em 1536, já após a varíola e o sarampo terem matado grandes números de gente e inclusive o imperador inca. (Caso você queira ler mais sobre descobertas mais recentes acerca das civilizações das Américas, veja aqui.)
Cusco caiu em 1537. Seu coração era a Awkaypata, que na época dos incas era a maior praça do mundo. Depois ela foi renomeada — de modo não muito original — Plaza de Armas, nome que carrega hoje como em outras dezenas de cidades da América Hispânica. E foi reduzida em tamanho porque os espanhóis acharam que aquela praça era grande demais. Hoje a Plaza de Armas tem apenas uma fração do tamanho da Awkaypata original.

Eram 190 x 167 metros recobertos de areia branca trazida das praias do Pacífico. Diariamente, homens passavam pra lá e pra cá "varrendo" a areia, isto é, ajeitando pra que fique rente e bonitinha. (Caso você ache que esse é um trabalho besta, lembre que no império inca todos tinham uma ocupação, e fique sabendo que eu vi imigrantes indianos fazendo isso no Catar em pleno século XXI. Eu, com a minha cara de pau, perguntei a um deles qual era o propósito daquilo. Ele olhou pra mim sem responder, e voltou a aplainar a areia. Veja aqui.)


Ainda hoje você vê nos arredores da Plaza de Armas de Cusco as bases dos edifícios de pedra, cujos blocos — originalmente unidos sem cimento — são tão juntos que os espanhóis da época diziam que "não entra nem um alfinete". 


Hoje, é claro, você vê igrejas e mansões coloniais. À época dos incas, veria veria placas de ouro polido à frente de arcadas de pedra, reluzindo ao sol junto com a areia branca, que juntos deveriam produzir um verdadeiro esplendor de luz. (O ouro, é claro, foi levado pelos espanhóis e hoje decora as igrejas e palácios de época na Europa e nas Américas.) 

Casas no centro de Cusco com as fundações de pedra do tempo dos incas.
Em Cusco o que você mais vê são as camadas sobrepostas dos vários períodos de sua história. Este era Qurikancha, o Templo do Sol, sobre o qual foi erguido uma igreja e mosteiro dominicanos.
A Plaza de Armas de Cusco hoje.
Awkaypata era "o umbigo do mundo", diziam os incas. Era o coração da capital e do mundo tanto no sentido geográfico quanto cosmológico. Daqui saíam 4 estradas, uma para cada uma das 4 regiões do império, e aqui se encontravam também os muitos "fios" de energia (zeq'e) ligando lugares sagrados da região (wak'a), e formando uma teia invisível que tinha esta praça principal de Cusco como o seu centro. (Ver 4 características fundamentais da sociedade inca e de que você provavelmente nunca ouviu falar.)

Você hoje acha uma abundância imensa é de agências de turismo nessa praça principal. Passeios pelo Vale Sagrado dos Incas, viagens a Machu Picchu, trilhas, etc. Às portas das lojas, nos arredores da praça, você vê várias moças e rapazes devidamente com suas pranchetas e folhetos olhando pra um lado e pro outro à busca de turistas.


Numa dessas, num dia melado e chuvoso, é que eu tomei o city tour. Acho que vale a pena, pois há muito conhecimento cultural e histórico que um bom guia pode lhe passar — do contrário, você irá apenas olhar pedras. 


O meu guia foi Gabriel, o senhor dos anéis. Um peruano baixinho de gel no cabelo e uns 5 ou mais anéis nos dedos. Caminhamos com ele pela estátua dourada do imperador Pachacúti, o nono inca e responsável pela edificação de muito de Cusco, na praça principal, e dali fomos ao convento dominicano erigido sobre as bases de construções incas.  

Pátio central do Mosteiro Dominicano em Cusco, erigido sobre o templo inca Qurikancha, ao deus sol.
Edificações do tempo dos incas. Perceba mesmo como ali não passa nem um alfinete entre um bloco e outro. E sem cimento. Os incas construíam em sistema de macho-e-fêmea, ou seja, blocos com pontas e blocos com aberturas, que se encaixavam uns aos outros para dar estabilidade. Deixavam também uma breve folga para que a construção resistisse ao chacoalhar de terremotos. A construção é tão boa que está aí assim conservada até hoje.
Gabriel explicando-nos esse desenho da cosmologia inca feito por um cronista indígena convertido, em 1613, exposto no Templo do Sol. Não vou entrar em detalhes da cosmologia inca porque ela é complexa e eu nem a entendo tão bem assim, inclusive porque ela não divide o cosmos em simples dimensões espaciais paralelas, mas em dimensões de tempo-espaço diferentes. É o conceito de pacha na língua quíchua. A ilustração feita por Joan de Santa Cruz Pachacuti Yamqui Salcamaygua consta em sua obra Relación de Antiguedades deste Reino del Pirú (1613). (Sim, a ortografia espanhola mudou com o tempo.) 

Ao contrário do que você provavelmente pensa, no entanto, o deus sol (inti) não é o principal na religião tradicional inca, e sim Viraqocha, deus criador. As concepções, com o tempo e a catequização, foram sendo ajustadas ao deus criador bíblico e às ideias católicas de céu e inferno. Hoje, há uma bela estátua branca do Cristo Redentor numa das colinas de Cusco — chamado popularmente de Cuscovado. (É sério. Eles adoram fazer esse trocadilho especialmente com brasileiros.)

O Cuscovado lá em cima, naturalmente bem menor que o carioca.

Foi com Gabriel que eu também fui a Sachsaywaman, após comprar uma charmosa capa plástica de chuva pelo equivalente a dois reais na praça. O meu charme foi registrado por um fotógrafo enquanto caminhávamos pela rua, e posto junto com outras paisagens do Peru para eu comprar. Comprei, é claro.

Dali eu iria, no dia seguinte, àquelas paisagens ali: conhecer o famoso Vale Sagrado dos Incas e, a seguir, a lendária Machu Picchu.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

4 características fundamentais da sociedade inca e de que você provavelmente nunca ouviu falar

Leia uma versão de melhor visualização deste post no novo site, em:
Quatro características fundamentais da sociedade inca e de que você provavelmente nunca ouviu falar

Aeroporto de Cusco. Gosto sempre de pôr fotos atuais para ninguém pensar que os incas não existem mais. Só foram explorados e ficaram pobres, mas continuam aqui no Peru, na Bolívia e no Equador para quem os quiser visitar.

Não sou o maior adepto de entradas em formato de lista ("5 coisas que você..."), pois virou clichê, mas neste caso uma vem a calhar. Há algumas informações valiosas — e curiosas — pra se entender os incas e apreciar mais uma viagem ao Peru, e que eu receio a maioria das pessoas desconhece. (Não me conformo que aprendamos até nome de faraó egípcio e quase nada sobre os povos do nosso próprio continente.)

Pra começar, o número 4 não poderia ser mais inca. Sua cosmologia tradicional vê a Via Láctea como um rio celestial. Onde os greco-romanos viram leite (daí o nome), os incas viram água. Na latitude do Peru, essa banda de estrelas — que pode ser vista a olho nu longe da poluição luminosa das cidades — cruza o céu de nordeste a sudoeste metade do ano, e de sudeste a noroeste na outra metade. Coincide mais ou menos com as estações de chuva e seca (daí a ideia da Via Láctea como um rio). Assim, a cidade de Cusco (a capital do império) era portanto o centro do universo. (Ria, mas lembre que os europeus e árabes à época também acreditavam estar no centro do universo, inclusive com viagens cosmológicas de o Vaticano estar diretamente sob uma cidade prateada de anjos, etc.)

A geografia inca, seguindo a mesma divisão espacial, via seu império como constituído de quatro regiões. Chinchaysuyu correspondia aos Andes do norte; Antisuyu à Floresta Amazônica, no leste; Kuntisuyu à costa sul do atual Peru; e Qullasuyu ao sul, estendendo-se até grande parte do que hoje é o Chile. Tawantinsuyu ("as quatro regiões") era o nome dado pelos incas — em seu idioma, o quíchua — ao império. Percebam que sua divisão direcional não é a nossa habitual, de Norte/Sul/Leste/Oeste, mas a das direções em que cruzava o rio celestial da Via Láctea no firmamento. 
As quatro províncias do império inca, com a capital Cusco em seu centro.
Aproveitando a deixa do 4, deixem-me passar quatro elementos fundamentais — e curiosos — da sociedade inca que provavelmente ninguém nunca lhe revelou. 

1) Os incas tinham escrita. A única escrita tridimensional conhecida no mundo.

Um arqueólogo certa vez disse que na Eurásia (Europa + Ásia) nada foi realmente original: tudo foi copiado e ajustado de povos vizinhos. Foi assim com a escrita, que em todos os povos daquele continente toma a forma de riscos n'alguma superfície. Na América, não. Aqui, isolados do restante do mundo, os antepassados dos incas desenvolveram uma escrita deveras original: em três dimensões. Usando algodão cultivado aqui há milênios, as sociedades tradicionais andinas faziam seus registros "escritos" — desde dados numéricos até literatura — em cordas, fazendo nós. Eu explico.

Quipo (ou khipu) é o nome dados a essas elaborações abaixo. Isso não é um mero enfeite, mas o que se poderia chamar de um "texto". Em vez de letras, as "variáveis" são nós, a depender do jeito, da posição, e da sequência. Além disso, dizem que o tipo de tecido (se podia utilizar pêlo de lhama além de algodão) e que as cores também influenciavam no significado.

Como ter certeza de que isso não é uma "viagem", fruto da imaginação? Simples, as elaborações matemáticas estão certas. As contas fecham. Ou seja, a lógica interna é consistente.

Como você pode imaginar, não era todo mundo que sabia ler. Tal qual em outras sociedades da época no mundo afora, havia "sábios" especializados em fazer e ler tais registros. A leitura se dava como um braile, a linguagem escrita pra cegos, através do tato e não da visão. Infelizmente os conquistadores espanhóis julgaram que isso eram terços do capeta e queimaram a grande maioria dos quipos. Felizmente alguns sobreviveram, mas ainda estão longe de serem suficientemente decodificados.   

2) Os incas na verdade não se chamavam incas, e as pessoas mudavam de nome ao longo de suas vidas.

Usamos um bocado de nomes errôneos para nos referirmos às sociedades indígenas do passado. Já comentei antes como os mexicanos pré-hispânicos só vieram a ser chamados de "Astecas" recentemente, no século XIX, uma designação um tanto problemática (de onde você acha que o México tirou o nome do país? Ver aqui). No caso dos incas, "Inka" significa algo como "senhor", e portanto era a alcunha dos governantes. 

Os povos em si a gente pode dividir pelos idiomas que falavam (e falam até hoje). O principal é o quíchua, embora haja sub-grupos muito diversos e também dialetos que não se compreendem mutuamente. (Eu, certa vez no Equador, escutei uma mulher falar em quíchua equatoriano no telefone, e me lembrou chinês, só que mais estranho.) Já no norte do que é hoje a Bolívia, na região de Tiwanaku e do Lago Titicaca, há os grupos Aymaras, conquistados pelo império inca lá pelos idos de 1480, ainda antes de os espanhóis chegarem. (Pra evitar confusão, vou continuar me usando a alcunha convencional de "inca" pra me referir a tanto governantes quando súditos.) 

O mais curioso, no entanto, é que as pessoas tinham o hábito peculiar de trocar de nome ao longo da vida. Pense em numerologia e naquelas tradições esotéricas que dizem que o seu nome tem influência sobre a sua vida e sobre a sua sorte. 

Numa época em que não havia registro civil individual, é como se você atendesse por um certo apelido por uns anos e depois passasse a ser conhecido por outro. Isso se aplicava, inclusive — ou, talvez, sobretudo — aos dirigentes, os Incas propriamente ditos, que estavam sempre preocupados com sua sorte.

Te davam um nome quando criança, outro após um ritual de entrada na idade adulta, e podia ainda continuar a trocar depois.

3) O Império Inca foi de todos o maior na América pré-colonial, mas não usava dinheiro e nem tinha mercados para a troca de produtos. Praticavam o que alguns especialistas chamaram de "socialismo vertical". E erradicaram a fome. 

O Império Inca parece ter sido um dos poucos — senão o único — governos da historiografia conhecida a ter erradicado a fome em sua população antes dos tempos modernos. Mas eles faziam isso de um modo um tanto peculiar. 

Não havia dinheiro. (Até aí tudo bem, nas Américas só alguns povos no atual México usavam "moeda", e na própria Europa muito da economia se dava à base de trocas.) Mas tampouco havia mercados ou feiras livres onde trocar produtos. Mercados livres sempre foram dos espaços de socialização mais importantes mundo afora desde da Antiguidade, seja na África, seja na China — e, na própria América, os "astecas" tinham mercados enormes, segundo os primeiros cronistas espanhóis (ver Cidade do México, vulgo Tenochtitlán). Não os incas. 

Como raios podiam os incas terem (e manterem) o maior império das Américas sem espaços para troca de produtos? E ainda terem conseguido erradicar a fome? O que os incas tinham era uma tradição de reciprocidade fortíssima e uma imensa burocracia. Se esta era ineficiente, não era por falta de produtos, mas talvez pelo excesso. 

Basicamente, todo mundo estava sempre fazendo alguma coisa. A produção era grande. Digamos que havia uma economia solidária avant la lettre. Ayni e Minka eram nomes dados ao trabalho prestado com base na reciprocidade em família e em comunidade. "Hoy por ti, mañana por mi", dizem ainda hoje.

O governo imperial, por sua vez, organizava as trocas de maior escala, certificando-se de que os mais variados produtos — das mais variadas eco-zonas, numa região de ecossistemas que vão da beira do mar a 6 mil metros de altitude — circulassem pelo império. Os impostos eram, portanto, em produtos e em trabalho (a mita). Este não se restringia a trabalhos braçais na construção de pontes, estradas etc., mas também abarcava os músicos, dançarinos e outros, que eram obrigados a prestar seus serviços publicamente.

Um antropólogo cunhou o termo arquipélago vertical para descrever essa economia dos incas onde "ilhas" de ambientes diferentes — separadas não por mar, mas por alturas — enviavam o excedente de seus produtos característicos umas às outras. Há quem use o termo "socialismo" mas fora de contexto. Saibamos que os incas usavam uma hierarquia social com nobreza, corte, até o inca propriamente dito, o imperador. Era portanto, um misto curioso de reciprocidade e igualdade dentro da comunidade, combinadas a uma estrutura de governo tão vertical quanto os Andes.
Estima-se que os incas cultivavam mais de 70 espécies, e mais de 200 variedades de batatas. Essa batata que alguns chamam de inglesa é, na verdade, nativa aqui da América do Sul e era um dos principais cultivos dos incas, junto com o algodão e o milho.
4) ... se era um socialismo, era um socialismo meio espírita...  

Eu ia encerrar contando que o Inca (o imperador) não podia pôr os pés no chão em público. Nem mesmo a sua saliva podia tocar o chão, então havia alguém ali que oferecia a mão com um pano pra o Inca cuspir, se quisesse. Outros não podiam tocar aquilo que ele tocava — o que quer que ele tocasse em público ficava retido, até uma cerimônia anual em que tudo aquilo (o que ele não quisesse mais, obviamente) era queimado. 

Mas mesmo isso aí empalidece diante do que eu aprendi depois. 

Na sociedade incaica, os mortos continuavam a ter espaço. Na nobreza ninguém herdava nada. Os mortos continuavam com suas posses. Um grupo de acólitas tomava conta de suas coisas, e uma médium se encarregava de manter o falecido em comunicação com o mundo dos encarnados. Havia até mesmo reuniões incluindo gente morta — num misto de política com sessão espírita, como se hoje houvesse um médium arranjando a participação de Ulysses Guimarães ainda na câmara dos deputados, e outro assegurando a presença de Machado de Assis nas reuniões da Academia Brasileira de Letras.

Os leitores espíritas talvez achem a ideia fascinante.

Acrescente a isso uma crença na existência de canais de energia no ambiente. Segundo os incas, há zeq'e ou linhas energéticas de características diferentes espalhadas, e confluências que são pontos de energia, os wak'a. E eles não são todos iguais — cada um tem suas propriedades e utilidades. No mundo material, pode ser uma simples rocha, ou uma cachoeira, uma gruta, etc. Cada qual tinha também sua história e mitos de origem, naturalmente. Para "tomar pé" disso tudo, o padre e cronista espanhol Barnabé Cobo (1582-1657) nos conta que "havia mais de mil homens na cidade de Cusco que não faziam nada além de lembrar essas coisas".  


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

No Andean Explorer, o charmoso trem pelas montanhas do Peru

As brumas se juntavam conforme avançávamos dentre as montanhas. Entre Puno e Cusco, no Peru, está talvez a melhor rota de trem da América do Sul. São 8h de uma viagem confortável margeando os Andes, seus rios e montanhas, e passando por vilarejos bucólicos. O custo da passagem pode ser ligeiramente alto (ver preços atuais em PeruRail.com), mas vale muito a pena.

Você compra tudo online, com cartão de crédito, e leva um voucher impresso em casa para trocar pelas passagens cá no Peru (em Puno ou em Cusco). Lembre-se de ter consigo o cartão de crédito usado na compra. Eu tenho o hábito de às vezes viajar só com um cartão, em vez de todos, e "pisquei" porque não lembrava se era o mesmo que havia sido usado online. No fim, foi, mas evite esse aperto.

As refeições estão todas incluídas, além de drinques típicos (pisco sour), música tradicional andina e uns desfiles de "moda" para turista ver. É divertido. Obviamente, peruano não usa esse trem — ele se parece mais com um Expresso Oriente (ou, às vezes, um expresso de Hogwarts) para turistas pelos Andes.

Foi uma diversão.
O Andean Explorer, fotografado numa das nossas paradas breves no caminho.
As montanhas vão enruguecendo-se aos poucos, conforme deixamos Puno (às margens do Lago Titicaca) e rumamos para Cusco.
Vistas que parecem computação gráfica, mas não são. São reais.
Passagem por um povoado, conforme as brumas das montanhas iam nos acolhendo.
Vista de plantações à margem de um pequeno rio.
Enquanto isso, do lado de dentro do trem, você fica naquela pose sólida de quem está ali pra ser servido. Um bombonzinho... uma papa à là huancaína (ver detalhes da comida peruana aqui)... um pisco sour, o drinque típico da costa pacífica da América do Sul, feito com destilado de uva (pisco), limão e clara de ovo batida. Parece estranho, mas é gostoso.

O interior é todo bem decorado e confortável, e você troca de ambientes à vontade — entre o seu assento "normal", a área do bar, e o vagão vistadome, o mais popular, com vidro por todos os lados (inclusive no teto) e as melhores vistas da paisagem. E o fundo é aberto pra valer, onde você pode sentir o vento.
Os assentos, já com cara de restaurante. Como eu disse, é tipo um Expresso Oriente andino.
Área livre.
O vagão Vistadome.
E o fundão do trem. Seja qual for a vista ao fundo, ficar ali assistindo ao trilho e à paisagem se distanciando no horizonte é uma sensação mágica, que te lembra aqueles filmes de velho oeste.
Ê vidão. Tomando um pisco sour no trem.
Só que, como a zoeira perpassa quase tudo, esta viagem no Andean Explorer não poderia escapar. 

Eu comecei a observar já desde o começo, desde antes de entrar no trem, na sala de espera. Rodeados de gringos, os músicos peruanos contratados pela empresa tocavam sua violinha com o estojo do violão já modestamente armado ali no chão para receber as gorjetas. Em serviços turísticos América Latina afora, graças às visitas frequentes de estadunidenses e canadenses, tornou-se quase impossível receber até "bom dia" sem esperarem uma gorjeta sua.

Na TV ligada, um vídeo em eterno replay mostrava o que nos esperava, com um tiozão gringo de chapéu de safari contando como tinha achado tudo maravilhoso.  
Os músicos andinos com o bumbo e as violinhas. 
Saindo dali, antes de chegares as verdejantes paisagens, não posso esconder que você passa pela cidade mais feia que eu já vi na vida: Juliaca. É um espetáculo incrível de balacobacos e coisas diversas que não ficam devendo nem à Índia.
Toda a paisagem de Juliaca vista do fundo do trem. Em nada deve à Índia.
A equipe do trem era pura simpatia, exceto por um clone triste de Nerso da Capitinga. Ele era o chefe da equipe, e andava em pose formal para lá e para cá com ar de pesar.
O simpático pessoal do trem, com o Nerso da Capitinga triste ali atrás.
Além dos funcionários, havia no trem um grande grupo de turistas belgas — além de muitos outros. Como eu disse, afora as belas paisagens nós fomos entretidos por um desfile de roupas tradicionais e por mais músicos andinos. A gente sabe que não é exatamente o tipo de música que toca nas rádios peruanas, mas não deixa de ser algo genuinamente daqui. E o mais divertido era ver a empolgação dos turistas. Fiz um vídeo que já tenho dificuldade de assistir sem desviar a atenção para o tio ali atrás dançando feito "bonecão do posto" (aqueles de ar).



E, porventura, parávamos aqui e ali no meio da viagem para apreciar a paisagem ao ar livre e ser abordado por vendedores. Digo assim mas era tranquilo. Havia desde gente vendo roupas até senhoras em trajes tradicionais (ou acompanhadas à disposição para tirar foto por um preço). Eu não resisti à velhinha e concordei em dar um trocado para tirar uma foto com ela. (A mão quase que vai onde não devia...).  

Acredito que, vista a idade, hoje ela já está com o Pai (ou com Pachamama, como preferir), mas fica a dica, a recomendação para tomar o trem dos Andes e se divertir.