sábado, 11 de janeiro de 2014

Palácios, escritórios comunistas, balé e desventuras em São Petersburgo, Rússia

É inverno. Nosso trem desliza sobre o metal de Helsinki a São Petersburgo. Do lado de fora, campos cobertos de neve cheios de casamatas, torres e fiação, parecendo uma área militar vigiada da Segunda Guerra Mundial. O sol já havia se posto desde as 4h da tarde, e só se viam as luzes brancas de holofotes sobre a neve. Dentro do trem, também metal, pois é o que mais se ouve escapando dos fones de ouvido dos finlandeses. Belas finlandesas de rostinho quadrado e tranças louras no trem, mas sentava-se do meu lado bem um marmanjo com cara de russo e casaco de couro preto cheirando a nicotina. É a vida. A pouco mais de 1h de São Petersburgo, a fronteira. Primeiro entra no trem a polícia finlandesa, depois a russa  estes o autoritarismo em pessoa, quase todos com "a cara do filho que matou o pai", como diria a minha avó. Mas aqui ao menos não há as filas dos aeroportos. O nome do trem, Allegro, parece uma tentativa de corrigir o cenário.

Apesar disso, chegamos bem e sem problemas. Já era noitinha em São Petersburgo, a bela capital imperial russa. A cidade foi erigida pelo czar (imperador) Pedro, o Grande, em 1703, numa tentativa de remodelar a Rússia de acordo com a estética e os costumes da Europa ocidental. Ele passou anos viajando para aprender as maneiras europeias, e quando voltou empregou uma série de mudanças, desde econômicas até coisas tipo obrigar a corte a vestir-se à maneira ocidental, obrigar todo mundo a se barbear, proibí-los de cuspir no chão, etc.

...e fundou esta cidade para ser a capital dos czares russos. São Petersburgo foi, portanto, a capital da Rússia até 1918, quando os revolucionários soviéticos transferiram o centro do poder político de volta a Moscou, que já havia sido a capital antes. O nome "São Petersburgo" não foi dado pelo czar Pedro em homenagem a si próprio, mas sim ao apóstolo Pedro. O nome mudou para Petrogrado na Primeira Guerra Mundial, pois acharam que o russo "grad" para cidade era preferível ao germanismo de "burgo", a língua dos inimigos. Daí a partir de 1924 os soviéticos abandonaram São Pedro de vez e a rebatizaram de Leningrado, já que aqui o revolucionário soviético Lênin fez carreira. Em 1991, depois de um plebiscito, a cidade voltou ao nome original de São Petersburgo. O importante, seja como for, é que aqui  e não Moscou  foi o centro de atividades tanto de czares notáveis como Pedro e Catarina quanto de Lênin e da Revolução do Outubro Vermelho, que transferiu o poder aos soviéticos. Então aqui há mais o que visitar do que em Moscou (sugiro uns 4 a 5 dias).
Nevsky Prospekt, ou Avenida Nevsky, a principal de São Petersburgo.
Esta visita a São Petersburgo chegando de trem da Finlândia no inverno, após a visita à Lapônia, foi a minha segunda. A primeira havia sido final de verão (mas já com temperaturas de outono), chegando de ônibus de Novgorod com amigos. Nessa primeira nós ficamos num albergue onde quase todo mundo estava gripado. E como na Rússia os ambientes quase sempre ficam fechados, imagine a cilada do Bino em que me meti.

Já no inverno o tempo estava friozinho, chão molhado da neve derretida, mas nada impossivelmente frio como a gente sempre acha que está quando imagina a Rússia. O centro da cidade fica particularmente bonito à noite. Você esbarra em várias construções históricas  sobretudo igrejas e palácios convertidos hoje em museus  e fica sem saber qual é a mais bonita. E, ao contrário de Moscou, São Petersburgo é uma cidade fácil de circular a pé.
Vista da janela do Apple Hostel, o nosso albergue na segunda viagem  ninguém gripado. Esses pátios interiores entre os prédios largos são hiper-comuns na Rússia e por toda a ex-União Soviética.
Catedral de Kazan (1801) no centro de São Petersburgo.
Igreja do Nosso Salvador no Sangue Derramado (1883). É, o título é assim mesmo, mas não se refere ao sangue de Cristo, e sim ao do Czar Alexandr II, assassinado aqui. A igreja foi construída meio que em sua homenagem.
Canais semi-congelados em São Petersburgo.

Não há dúvidas de que São Petersburgo é uma cidade mais elegante e mais clássica do que Moscou. Se assemelha um pouco mais ao que encontramos na Áustria ou na Alemanha. Há quem critique, dizendo que tudo é imitado (veja, por exemplo, como a Catedral de Kazan se parece com a Basílica de São Pedro em Roma, ou como a Igreja do Sangue Derramado parece a Catedral de São Basílio em Moscou). Seja como for, é inegável que São Petersburgo tem muito charme. Andar por aqui à noite é a glória.

O ponto mais turístico da cidade é, provavelmente, o Palácio de Inverno transformado no Museu Hermitage, fundado pela czarina Catarina, a Grande, em 1764. O museu é na verdade um complexo de vários prédios, entre eles o Palácio de Inverno (abaixo).
Um primo meu, em frente ao Palácio de Inverno em São Petersburgo. (A minha foto saiu borrada).
Palácio de Inverno durante o dia e no verão, na minha primeira visita à cidade. (É pra olhar pra o palácio, não pra as pernas da moça).
Saibam que as filas são imensas, e que as obras de arte no interior são quase exclusivamente estrangeiras. Começou como a coleção particular de Catarina, e depois se expandiu. Vale a pena ver mais pela beleza dos interiores do que da arte em si, que você encontra mais dos mesmos estilos na França, na Itália ou na Holanda. Se quiser algo autenticamente russo, vá ao Museu Nacional Russo, perto dali. Foi o que fiz na minha segunda visita. Digo que gostei até mais que o Hermitage. Afinal, você está na Rússia, e vale a pena ver o que os pintores russos produziram.
Retrato pintado de Leo Tolstói, escritor russo de obras antológicas como Anna Karenina e Guerra e Paz.
Interior palaciano do Museu Nacional Russo.
O original do famosíssimo Cavaleiro na Encruzilhada (1878), muito conhecido entre jogadores de RPG e fãs de fantasia medieval, mas que nem sempre sabem que este é o quadro de um pintor russo, Viktor Vasnetsov, do século XIX.

Outra atração fundamental na Rússia é o balé. Em Moscou há a companhia Bolshói, já aqui em São Petersburgo há o Mariinsky  ambos você precisa agendar com meses de antecedência se quiser ingressos pro assentos menos caros. Fui ao Mariinsky em ambas as vezes em que estive em São Petersburgo, e não me arrependi. Não é aquela coisa oh-meu-Deus-que-coisa-estupenda-affee-maria, a menos que você seja muito entusiasta da dança. Mas já que veio até aqui, assista. Vale a pena.

Na primeira visita à cidade nós fomos de ônibus até o teatro, eu e meus quatro companheiros de viagem, e saboreamos novamente a maravilhosa delicadeza dos serviços russos. Eles aqui têm um método pra lá de eficiente para cobrar a passagem no ônibus: como na maior parte da Europa, não há cobrador, você compra o bilhete da passagem antecipadamente. Mas em vez de mostrar o bilhete ao motorista, eles aqui têm uma tia com uma bolsa a tira-colo se esprememendo e esbravejando no meio do ônibus lotado e querendo ver a passagem de todo mundo. Conosco ela gritou feito uma condenada (em russo, é claro) até entendermos que ela queria ver os nossos 5 bilhetes todos ao mesmo tempo, pois ela achou que estávamos repassando o mesmo bilhete um para o outro e mostrando um de cada vez. (E você aí reclamando dos cobradores no Brasil...).

Na segunda viagem eu simplesmente evitei os ônibus e fomos a pé.
No Teatro Mariinsky, nas varandinhas. Sim, o interior do teatro já vale a vinda. 

Já se você não é tão chegado nessa coisa mais clássica e prefere aqueles ambientes à lá Guerra Fria e União Soviética, não deixe de ver o Museu de História Política, onde fica o antigo gabinete de Lênin e a varandinha de onde ele discursava às multidões de operários. De quebra, você verá muitos cartazes de propaganda soviética (que são, inclusive, dos souvenirs mais populares aqui na Rússia).
O braço forte vermelho esmagando a cobra nazista.
Tipo: "Meu pai se alistou, e o seu?"
Escritório da época  com direito a decoração natalina.
Antigo escritório de Lênin, com a porta para a varandinha de onde ele discursava.

Por fim, deixo vocês com as fotos dos Palácios de Pedro (Peterhof) e de Catarina, cada um um dia inteiro de passeio, pra ver os jardins e os interiores super-decorados  mas só vale a pena nos meses mais quentes do ano (maio a outubro).
Ruas e praças de São Petersburgo no inverno.
O largo Rio Neva, que corta a cidade, semi-congelado.
Nos jardins do Peterhof, palácio do czar Pedro nos arredores de São Petersburgo.
Entrada para o palácio.
Jardins nos arredores.
Fontes mis e estátuas de ouro na face interna do palácio. 
(E aí você se pergunta por que é que a classe trabalhadora russa se revoltou...). 
Com o audioguia no interior dourado do Palácio de Catarina, também nos arredores da cidade.
Nos jardins do Palácio de Catarina, com as folhas começando a ganhar cor em setembro.

Caí fora antes de gripar, mas a tempo de ver essas belezas da capital imperial russa. Uns dias aqui valem muito a pena. No verão há esse "plus" de poder ver os palácios. Um dia ainda retorno à Rússia pra tomar o trem transiberiano 
 e, é claro, contar aqui.

до свидания! [Da svidâniya], Rússia! Até a próxima! País novo no próximo post...


Um comentário:

  1. Migo, que lugar bonito!
    Este palácio de Catarina é muito legal!
    Só não consegui de notar duas pessoas "peladas" - a moça e vc, de camiseta!!! E tava nevando!!! Como que consegue?

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