sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Dubrovnik (Croácia), uma das mais belas cidades da Europa

Parece computação gráfica, mas é real.
A cidade da antiga república independente de Ragusa hoje se chama Dubrovnik, cidade croata na costa do Mar Adriático. Aqui se filmam episódios da série Game of Thrones (as cenas da capital fictícia de King's Landing). Mas mesmo se você não assiste à série, verá por que a cidade é utilizada como cenário de fantasia medievalesca.

Dubrovnik é uma cidade linda, épica. Atrai turistas como formigas, sobretudo no verão, e ao chegar aqui você entende o porquê. Antes de vir eu estava meio intimidado, tanto pelos preços altos (nível Paris, Amsterdã) quanto pelo enxame de gente que sabia que encontraria. Mas valeu muito a pena.

Se a costa da Croácia toda no verão se transforma num clube a céu aberto em cenário histórico (como eu indiquei em Veraneio nas Ilhas da Croácia), Dubrovnik é o seu circus maximus, a cidade de maior atração.
Localização, pra todo mundo se orientar. Dubrovnik fica lá no rabinho sul da Croácia, quase no fim do país. Melhor vir de avião.

Nós, no entanto, chegamos de carro, após um dia de viagem inesquecível desde Sarajevo e atravessando as montanhas e rios do interior da Bósnia (aqui).

Chegamos à noite. Tínhamos o endereço exato, mas esquecemos que o Google Mapa não mostra relevo. Prepare-se: Dubrovnik é cheia de sobes e desces. Subimos com bagagem até o que parecia perto, na casa do Seu Ljubo [Liúbo].

A porta abriu-se automaticamente e sem resposta após chamarmos no interfone. Dentro, um jardim agradável, com bancos onde se sentar, e plantas altas que ramavam pra cima antes da casa propriamente dita, uma de dois andares. Não víamos ninguém, até uma voz masculina cansada vir do alto: "Eu estou vendo todo mundo. A porta fica aberta. Pode ir". Surreal, como se Deus nos houvesse dito.

Logo chegou Ljubo, um senhor alto (de seus 1.85m), magro feito uma vara, de seus 50 e poucos anos, cabelo grisalho e ar cansado. Tinha com uma voz grave de fumante, olhava pra você como se estivesse cansado da vida, e falava devagar. Você falava algo a ele e tinha sempre uma pausa de uns 3 segundos até que ele respondesse, no seu passo. Cheguei a pensar que ele tivesse tomado umas, até perceber que ele era sempre assim.

Ficaríamos em sua casa. A coisa mais comum na Croácia é aluguel de quartos  muito mais opções e em conta que os hotéis. Ele vivia no andar de cima (de onde nos havia falado, da sua varada de onde tudo vê), e alugava os quartos no andar de baixo. Apertados, mas a localização era boa: às portas da muralha da cidade antiga.

Em Dubrovnik, localização é importante. Acomodações dentro da muralha custam um tiro, embora seja muito prático. Ficar longe, precisando de transporte público, é menos prático, até porque fica socado de gente. Melhor é ficar ali perto, nas cercanias, a distância que dê pra ir e voltar a pé.
Vista de costas para a entrada da casa do Seu Ljubo, já do lado de dentro no jardim. 
Vista para a casa propriamente dita. Sua voz veio lá do alto, acima das rameiras.
Eu sei, a casa parece assombrada, mas era acolhedora uma vez que se conhecesse o Seu Ljubo. Esse jardim era pra lá de aconchegante, ótimo de se sentar com as plantas ao redor numa noite de verão.

Minha amiga perguntou se a água da torneira aqui era potável (na maior parte da Europa é, mas não em todos os países). Cinco segundos depois, ele, com suas calças compridas e chinelão velho no pé, faz um gesto lerdo com a mão mostrando as pernas. "Eu bebo, e estou aqui". Pouco inspirador, mas tomamos aquilo como um sim.  
Durante o dia a mesma entrada já não parece tão soturna.
Vista que tivemos ao café da manhã, no dia seguinte.
E, virando-se para o outro lado, esta. 

Ô vida dura. A comida croata, como comentei anteriormente, não é exatamente um espetáculo, mas quebra o galho. O pão é bom. Há uns quitutes de café da manhã, e pode-se achar um bom café também. (Durante o dia, prepare-se para comer muita pizza, massa e peixe grelhado. Coisas meio genéricas.)

A comida servirá para abastecê-lo para as andanças o dia inteiro pela cidade. Tudo no centro histórico se faz a pé, como você deve imaginar. E como alertei, há muitos sobes e desces, então prepare-se para suar. Mas se prepare também para deleitar-se com o lugar. Não é como em outras cidades europeias onde você tem uma lista de "atrações" a ver e sai de uma pra a outra. Aqui a tônica é saborear o lugar, vagueando pelas suas igrejas, muralhas, torres, jardins, apotecários antigos, ou simplesmente pelas suas ruelas, sentido-se transportado para outra época. Ou melhor, para outro universo.
Jardim externos, à beira das muralhas. Nesse jardim filmaram cenas de Game of Thrones.
Praça ainda no exterior das muralhas, com as hordas de turistas que ajuntavam-se a partir do final da manhã, uma vez despertos das folias da noite anterior. 
As ruas no interior da muralha aqui são assim, todas com pedra lisa no piso, e exclusivas pra pedestre. 
Aos lados, alguns becos charmosos assim.
E outros assim.
Ou praças assim.
Dubrovnik é uma perdição, em todos os significados da palavra. Dá vontade de caminhar e ver cada rua, cada ruela, e explorar cada recanto da cidade. Você encontra pequenos jardins escondidos, e também áreas quietas onde pode isolar-se temporariamente da multidão.

Não deixe também de entrar nos museus e outros sítios históricos em que puder. Há interiores muito bonitos. Visitei um mosteiro franciscano com a farmácia mais antiga da Europa, mantida até hoje com nomes em latim, igrejas várias, e prédios outros. Os preços são altos, mas vale a pena. (Só os souvenirs é que te farão pensar duas vezes, pois às vezes são caros demais pra pouca coisa.)
Interior de um aconchegante mosteiro franciscano onde também funciona a mais antiga farmácia da Europa, um apotecário aberto em 1317 e ainda em funcionamento aqui. (Não era permitido tirar foto da farmácia em si, mas havia de tudo, desde remédios modernos a infusões antigas com nomes em latim.)
Jardins internos.
Marco no Pharmacopolium Ragusinus, em referência ao antigo nome da cidade, Ragusa.
Interior do Palácio do Reitor, hoje um museu. Foi, entre o século XIV e 1808 a sede administrativa da República de Ragusa. 
A catedral, vista de fora. 
Um altar simples no interior.
Imagem, com mais inscrições em latim.

A República de Ragusa foi, por séculos na Idade Média e Idade Moderna, uma cidade-estado praticamente independente. Teve Veneza como sua suserana por um tempo (1205-1358), ganhou autonomia, mas mais tarde (em 1458) teve que negociar novo tratado de suserania, desta vez com o Império Turco Otomano. Virou um "protetorado", pagava tributo todo ano aos turcos, mas tinha relativa independência. Era governada por um "reitor", eleito periodicamente das famílias poderosas, e havia conselhos administrativos e judiciários. Usava o latim e, mais tarde, um dialeto local chamado de língua dálmata, semelhante ao italiano. A coisa só acabou mesmo com a invasão napoleônica em 1808.

Daí começou o quid pro quo (vulgo kiprocó), o toma-lá-dá-cá político pra ver quem governaria a república após a queda de Napoleão em 1815. Ragusa passou primeiro para o Reino da Dalmácia (ver sobre a Dalmácia aqui), como parte do Império Austríaco ("Austro-Húngaro" a partir de 1868, ainda que permanecendo sob a família dos Habsburgo). Com a queda desse império ao final da Primeira Guerra Mundial em 1918, Ragusa veio a se tornar parte da nova Iugoslávia, já que a maioria da população na região era de origem eslava. Renomearam a cidade formalmente como Dubrovnik, que é como eles já a chamavam.

Os italianos não gostaram nem um pouco. Muitos que falavam italiano emigraram. Sobretudo à época fascista, a partir de 1922 quando Mussolini chega ao poder na Itália, tornava-se forte o ideário da chamada "Itália irredenta", de cobiça por territórios que um dia haviam sido domínios de italianos e onde havia minorias latinas. Expliquei um pouco disso em Trieste: Uma Breve Passagem pela Itália Irredenta. Basicamente, então, a Itália tratou logo de atacar Dubrovnik durante a Segunda Guerra Mundial para tomá-la. Segurou-a por um tempo, mas depois com a derrota do Eixo Alemanha-Itália-Japão na guerra, a cidade voltou aos croatas. Surgiu a República Socialista da Iugoslávia, e desde 1991 a Croácia é um país independente.
A independência da Croácia custou vidas. Esta é uma foto de 1991, daquela mesma rua principal que hoje é linda e repleta de turistas. A cidade foi bombardeada a canhão durante a guerra de independência contra os sérvios (ainda na malfadada Iugoslávia), que não queriam deixar os croatas se separarem.
Voltando ao presente.
Afora bordejar e imergir na cidade, fiz aqui três coisas que recomendo muitíssimo: 

(1) Tomar o bondinho que leva ao topo das colinas que cercam a cidade, de onde você pode ter uma vista aérea de Dubrovnik. 
(2) Subir as escadas e fazer o circuito de cerca de duas horas a pé por cima das muralhas ao redor da cidade (se tiver pernas, mas a vista recompensa).
(3) Tomar um dos vários passeios de barco, de onde você também terá belas vistas, desta vez desde o mar.
Lindas vistas lá do alto.
Da muralha, com o sol na cara.
Vista da cidade desde o alto da muralha. 
O povaréu lá embaixo.
Vista também para a varanda dos moradores. Grande parte são idosos que já moravam aí antes de a cidade se tornar destino turístico pop.
Vista do centro fortificado de Dubrovnik desde o mar.
Se fizer o passeio de barco no final da tarde, terá esse lindo bônus.

Dubrovnik não é ainda uma cidade de fama estabelecida como Florença ou Veneza  eu mesmo nunca tinha ouvido falar nela até poucos anos atrás , mas acho que já os convenci de que ela merece ser visitada. 

Uns três dias são suficientes, eu diria. Depois de muito bordejar, nós ainda tínhamos um destino final: Montenegro. Queríamos, eu e minha amiga, ir à linda baía de Kotor, no país vizinho. Se você notou, Dubrovnik fica no finzinho sul da Croácia, e Montenegro está a um pulo daqui. Porém, como as relações comerciais e diplomáticas entre os dois países são frias (devido ainda à guerra dos anos 1990), não há serviço de ferry entre cá e lá. Uma pena, pois seria absurdamente lindo, com esse mar e essa costa. 

O resultado foi pegar um ônibus que em 2h de viagem chega lá. Pertinho. Esse passeio final desta viagem eu conto a seguir. Por ora, fiquem com mais fotos do centro de Dubrovnik.
Entardecer na rua principal do centro de Dubrovnik. 
Entardecer na muralha, com vista tanto para as casas e para o mar, com esta bela palmeira mediterrânea.
À noite.
A folia custa a parar.
Como eu disse, no verão a costa da Croácia se torna um palco de entretenimento em cenário histórico, e Dubrovnik é o seu circus maximus

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Aventurando-se de carro pelo interior da Bósnia: Blagaj, Počitelj, e mais

Como eu disse e repito, a Bósnia é um país lindo e subestimado. Geralmente não imaginamos que haja ainda tanta natureza no continente europeu, mas aqui nos Bálcãs, na Europa do Leste, ainda há. 

Completamos a nossa visita a Sarajevo, a capital bósnia, como relatado aqui e aqui, e era chegada a hora de partir. Destino? Dubrovnik, a mais famosa e badalada cidade da Croácia, e cenário de gravações da série Game of Thrones


Mas o transporte de Sarajevo a Dubrovnik não é exatamente o mais conveniente. Não há trem, e a viagem de ônibus dura mais de 10 horas, na maior parte dos casos exigindo conexão. Passaríamos, praticamente, um dia inteiro dentro de um ônibus. Foi aí que Dženan [Djenãn], o dono da pousada onde ficamos, fez uma oferta de nos levar de carro por um preço. 


Não valeu a pena, valeu MUITO a pena. Pra quem puder viajar o interior da Bósnia de carro, faça-o, pois há lugares inacreditáveis a ver.


Saímos pela manhã com a meta de chegar a Dubrovnik ao anoitecer, passando no caminho por muitos pontos de interesse: Cataratas de Kravice, vilarejo medieval de pedra de Počitelj, um refúgio dos místicos islâmicos Sufi à beira das montanhas e de um rio, e mais. Foi um dia inesquecível, até por outras surpresas. 

Estrada que tomamos na Bósnia. Só as vistas já valem a viagem.

Dženan tinha um carro grande, onde na frente  com a visão privilegiada  fomos eu, ele, e Filiz, a minha amiga turca. Atrás de nós, no banco dos fundos, vinha Bilal. Bilal é um tradicional nome islâmico, de um negro forte e de voz grossa que acompanhava o Profeta Maomé (não estou zoando). Dizem que, com seu vozeirão, Bilal deu início à tradição islâmica de chamar a comunidade de fiéis às cinco preces diárias. Mas este Bilal que nos acompanhou era um loirinho de 4 anos, filho de Dženan.   


A nossa primeira parada foi, naturalmente, para comprar comida. Paramos uma padaria dessas de bairro, onde compramos alguns quitutes típicos para o caminho. Por sorte, o dia estava lindo.
Uma espécie de fritada de ovos, em forma de torta.
Quitutes típicos. Os da esquerda eram de queijo branco (ou espinafre?). O da direita era de maçã, com essa cara meio melada mas saboroso. 
Como se vê, os subúrbios aqui são em geral pobres.
Rápido se deixa Sarajevo, e surgem as montanhas ao redor. Por muito do trajeto se vai também margeando o Rio Neretva, de cores azul-esverdeadas. 

A nossa segunda parada (pouco necessária) foi numa casa que vendia parafernália da época comunista iugoslava à beira da pista. Acho que alguns turistas gostam, e eles trazem gente aqui. 


Havia de tudo espalhado por vários cômodos cheirando a velho, e tudo estava à venda. 

Casa na beira da pista que vendia quinquilharias de segunda (ou terceira) mão.
Não comprei nada. Minha amiga turca comprou uns broches da época iugoslava, e seguimos. Adentrando a natureza, passaríamos daí por cidadezinhas e recantos lindos do interior da Bósnia. 

A nossa terceira parada foi a cidadedezinha de Konjic [Koníts], essa aí abaixo onde nos detivemos para tomar um café (eu sei, parece viagem de hobbit com tanta pausa para comer, mas as paradas para tomar um café são fundamentais). Além do mais, a cidadezinha é um charme.

Ponte em Konjic.
Cigana pedindo esmola numa outra ponte. A maior concentração de ciganos no mundo está aqui nos Bálcãs. É também onde eles são mais discriminados. 
Vista para as montanhas ao longe.
A parada seguinte, depois de um pouco mais de estrada, foi Jablonica [Iablonítsa] onde se cruza o Rio Neretva. Cores impressionantes.
Vista do Rio Neretva.
Esta é a vista que se tem da janela do carro. 
De um restaurante por onde passamos.
Flores em detalhe.
A estrada adiante. Começávamos a entrar mais pelas montanhas.
Mais vistas pela janela do carro.
Pararíamos a seguir para almoçar no vilarejo de Blagaj [Blagái]. 

Ele fica entre rochosas montanhas do início dos Alpes Dináricos (nome da cadeia de montanhas que desce pelo lado leste do Mar Adriático, desde a Eslovênia, pela Croácia, Bósnia, até a Albânia, mas não relacionada aos Alpes da Suíça, Áustria, e norte da Itália. Há um mapa aqui, pra quem estiver geograficamente perdido). Blagaj fica também à beira do charmoso Rio Buna, um tributário do Neretva das fotos acima. 


O mais especial aqui, afora a natureza, é um pequenino mosteiro construído no século XVI por sábios Sufi, uma vertente mística do Islã. Já comentei sobre eles em outros posts meus, como em As Flores de Shiraz e o Lado Poético da Pérsia. Essa vertente existe há cerca de mil anos e segue ativa, mas não é o Islã dominante que você vê na mídia. Os Sufi buscam a sabedoria interior e reverenciam a natureza, de uma maneira que lembra o zen-budismo. Como eles mesmos dizem: "As lamparinas são diferentes, mas a luz é a mesma".



"Como pode o seu coração viajar a Deus quando ele está acorrentado por desejos?", perguntava Ibn Arabi, um Sufi árabe andaluz (do sul da Espanha) do século XII.

"Você não é uma gota no oceano. Você é o oceano inteiro numa gota.", dizia Rumi, sábio persa Sufi do século XIII.

Só que, fazendo uma observação muito breve, a leitura ocidental comumente feita do zen-budismo é algo muito individualista. Os Sufi, por outro lado, ressaltam muito o amor, como faz o budismo tibetano e fez o próprio Cristo. Eles também falam em Deus mais explicitamente que os budistas. Não esse Deus barbudo caricaturado, mas um Deus onipresente e profundo. 



"O silêncio é a língua de Deus. Todo o restante são traduções imperfeitas.", dizia Rumi.

Rumi, em especial, falava muito do sentimento de amor profundo, contrariando a ideia racionalista comumente feita do sábio como alguém emocionalmente retardado, desprovido de sentimentos.

"Isto é o amor: Voar em direção a um céu secreto. 
Fazer caírem cem véus a cada momento. 
Primeiro, soltar-se da vida. 
E, finalmente, dar um passo sem pés." - Rumi

E os europeus crêem que inventaram o romantismo.

Pois bem, voltando a Blagaj, não à toa os refúgios Sufi são preferencialmente em meio à natureza. A energia aqui é fantástica, e você imagina mesmo como seria viver ali, e de onde vem tanta inspiração.
O refúgio Sufi é aquela casa no sopé da montanha.
Um jardim de flores. "O que foi dito à rosa e que a fez abrir-se, foi também dito a mim, aqui no peito", dizia Rumi.
A vista que você tem da janela.
Rio Buna adentrando a montanha. As cores e brilhos são surreais.
E ali mesmo almoçamos, com água corrente deliciosamente passando ao lado.

Saí dali inspirado para a nossa parada seguinte, que seria menos espiritual e mais física: Počitelj [Potchitéli], um vilarejo medieval de pedra. 


Física por que, construído em elevações às margens do Rio Neretva, Počitelj fica no alto e requer belas pernas. 

Fomos até o alto daquela fortificação lá no topo. Prepare as pernas, mas a vista é recompensadora.

Hoje Počitelj é um vilarejo quieto, de lindas casas tranquilas de pedra intercaladas pelo verde de pés de romã, fruta típica da região. (No Brasil o romã tem má fama de amargar, mas os daqui são azedinhos meio doces. A fruta é ultra-popular aqui neste sudeste europeu e na Turquia.)

Casas de pedra e pés de romã no verão em Počitelj.
Antigamente, desde antes da conquista desta região pelos turcos otomanos em 1466, estas já eram fortificações medievais utilizadas para monitorar quem passava pelo rio  meio importante de transporte numa época em que as estradas eram parcas. Com a conquista pelos otomanos, o lugar foi fortificado. 
A vista e o suor na cara do cidadão, lá em cima. 
Fortificações e torre de observação à beira do rio.
No alto. Dženan e Bilal ali atrás.
Vista já no meio do caminho de volta, com uma mesquita em meio ao verde.

E lá adiante, a nossa parada final antes de cruzar a fronteira com a Croácia para chegar a Dubrovnik. Nos deteríamos pra ver as lindas cataratas de Kravice [Krávitse], numa área verde.


Águas verdes de um jeito impressionante, e um barzinho ali onde muitos visitantes tomavam algo ao som das águas que caíam. 

Cataratas de Kravice.

Foi nessa que, do nada, uma senhora baixinha e gordinha vestida de freira se vira pra mim com o dedo indicador apontado à minha barriga como se anunciasse um assalto e pergunta: "Sei indiano?", em italiano, perguntando se eu era indiano. Rai ai. 


Diante da minha negativa, ela ainda olhou um pouco, e depois se desinteressou. (É cada uma que me aparece.)


O sol não demoraria a cair, e tínhamos ainda algumas horas de viagem até cruzar a fronteira com a Croácia e chegar a Dubrovnik. Outra vantagem de vir com Dženan de carro é que ele sabia onde cruzar a fronteira sem pegar engarrafamento. Foi aí que duas coisas surreais aconteceram.


Primeiro, no ziguezaguear da estrada nas montanhas (que ficam mais altas aqui perto da fronteira), de repente vemos alguns carros paramos num "acostamento". Os motoristas parados faziam sinal pra nós. Dženan perguntou do que se tratava, e lhe explicavam que ali à frente vinha um ônibus que teve problemas no freio. Como? Fiquei de cara com o Velocidade Máxima verdadeiro. Só acreditei mesmo quando vi o ônibus vindo, ziguezagueando pela estrada à frente. Não me pergunte o que aconteceu com ele.

Momento em que chegava o ônibus, e nós ali parados esperando junto com outros carros.
Dženan ligou o rádio. O noticiário em Bósnio falava coisas que eu não compreendia. Dirigimos ainda por algum tempo, dando mais voltas pelas montanhas até chegar à fronteira. Dženan pediu os nossos passaportes, que apresentaria aos oficiais quando chegasse a hora. E de repente eu escuto a voz no rádio dizer "Brasil...blablabla... Eduardo Campos...". 

Oi? Eduardo Campos na rádio na Bósnia? Será que morreu?


Perguntei a Dženan o que a rádio tinha dito, mas foi bem na hora em que cruzávamos a fronteira, e ele falou que não havia prestado atenção. Enviei uma mensagem pra casa pelo celular e não deu outra, foi o dia do falecimento do Eduardo Campos. 


Chegamos a tempo de ver o restinho de pôr do sol sobre o Mar Adriático, e à noite entrávamos em Dubrovnik.


Ficou um dia memorável, pela esplêndida natureza e recantos da Bósnia, como pelas curiosidades e acontecimentos do dia. Volto com vocês de Dubrovnik, em solo croata.