sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Veraneio na costa da Croácia: Hvar, Brač, e mais

Vista de um restaurante numa das centenas de ilhas na costa da Croácia.
As vistas aqui são de acalentar o coração. 

É verão na Europa, e com ele milhares de turistas vêm visitar os litorais quentes do sul do continente. Portugal, Espanha, França e Itália fizeram fama no século passado com tradicionais destinos badalados por celebridades (Ibiza, Cannes, entre outros). Hoje, no entanto, digo que a costa mais popular e "revelação" neste século XXI na Europa é, sem dúvidas, a da Croácia.

Membro da antiga Iugoslávia no leste europeu (junto com Sérvia, Bósnia, Eslovênia, Montenegro, Kosovo e Macedônia), a Croácia hoje é a queridinha do grupo na Europa. É a mais recente adição à União Europeia, desde julho de 2013. Enquanto aqueles demais países continuam relativamente pobres, impregnados de corrupção, e têm às vezes conflitos internos, a Croácia (e a Eslovênia, que já havia se unido à UE em 2004) são vistas como estáveis e bem-vindas ao clube de países europeus mais "adiantados". Esta ao menos é a visão geral aqui na Europa.

Política à parte, sua costa linda e o mar azul é que dão muito do charme que a Croácia tem. Seu litoral pode não ter daquelas praias paradisíacas do Brasil ou da Austrália, mas tem casario antigo em vilarejos tradicionais, um mar belo e muita história (estes sim são o forte na Europa). Já falei um pouco da história local no post anterior (ver Split: Ruínas Romanas na Costa da Croácia). É hora agora de falar do sabor do lugar e da curtição.  
Vista para o mar na ilha de Hvar.
Vila de Supetar, na ilha de Brač.
É tudo muito belo e bem cênico. Mas tem um outro lado.

Eis uma síntese do que você vai encontrar aqui: Mar (mais do que praia), lindas casas, ruelas e vilarejos de pedra, festas, música eletrônica, pizza e fast-food, croatas alugando seus apartamentos, comilanças doces típicas destes países da ex-Iugoslávia. E fique longe do sorvete, por favor.

A região emana sossego mas se tornou altamente turística. 

Há quem alugue barcos pra navegar pela costa, mas é perfeitamente possível tomar ferries diários e sair de uma ilha pra outra, usando Split, Zadar ou alguma outra cidade costeira como ponto de apoio. Você será acompanhado por centenas de jovens holandeses, ingleses, alemães, italianos, franceses e espanhóis procurando festa, folia, calor e curtição. Prepare-se para algazarra, filas homéricas, bares cheios, e a galera virando a noite na rua. Não estou criticando; eu mesmo aproveitei bastante; mas venha preparado.  

Cheguei pelo aeroporto de Split, e olhem aí a sugestiva propaganda que encontrei logo de cara, recepcionando os viajantes. 
Quem já veio à Europa no verão sabe que as Havaianas estão por TODA parte, e com a bandeirinha do Brasil nelas. O Brasil é o maior símbolo mundial da alegria de veraneio. Quem não vai ao Brasil, vem à Croácia.

As várias ilhas são muito parecidas, então não se preocupe em visitar todas elas (são mais de 700, 48 delas habitadas). Eu fui à ilha de Brač [Brátch], à cidadezinha costeira de Trogir, e à famosa ilha de Hvar, todas essas nas proximidades de Split. 

Em Brač eu fui à praia. É difícil falar realmente de praia aqui na Croácia, sobretudo se você está acostumado com o Brasil. Na Croácia o que realmente tem são partes costeiras de águas rasas, com pedrinhas em vez de areia, e água fria. Refresca do calor, mas acho melhor de ver do que de entrar. 
Em sintonia com os meus arredores, em Brač.
Uma "praia" daqui, em Hvar. Há muitas assim.
Algumas outras são melhores, como esta aqui onde entrei, em Brač. 
Ainda assim, a vista me impressionou mais do que o banho.
Definido que você não vai passar muito tempo nessa água fria, ou você vai pegar um bronze no sol, ou vai bordejar pelas ruelas históricas dessas cidadezinhas. Foi o que eu fiz. 

Enquanto nos onipresentes calçadões à beira-mar o que você tem são hordas de grupos de jovens tentando vencer a ressaca da noite anterior, tomando café preto e preparando-se para tomar o ferry pra algum lugar, a uns passos dali, vilarejos adentro, você tem ruelas pacatas e sossego.  
Característicos calçadões à beira-mar, com turistas jovens pra lá e pra cá, e os ferries levando e trazendo gente. Vá com antecedência ou compre passagem no dia anterior, pois as filas às vezes ficam enormes!
Uma das muitas ruelas tranquilas. Como eu disse, tudo em pedra, muito charmoso. 
Mais ruelinhas sossegadas.
Dão um ar histórico respeitoso que contrasta com a fuzarca das festas ocorrendo à beira-mar.
E uma boa mesa em agradável ambiente. Restaurantes abundam, voltados sobretudo para a clientela turista.

Só é uma pena que a "boa mesa" seja mais no aspecto ambiental do que gastronômico. Enjoei-me de comer peixe grelhado ou massa todo dia no almoço e no jantar. Ah, eu adoro massa. Eu também, mas quero ver você dizer isso depois de uma semana comendo macarrão com molho ou pizza. Sem contar que, como a clientela é quase inteiramente turista, eles vendem qualquer coisa e a qualidade nem sempre é das melhores.

Eles gostam de se vender um pouco como uma segunda Itália, até pelas origens históricas em comum, mas na gastronomia eles aqui ficam devendo. O sorvete então, saboroso na Itália, aqui é todo daquela qualidade de terceira, colorido e açúcar puro. 

No geral, eu senti aqui a falta de uma maior expressão cultural própria. Não é que não exista, mas é que você quase não vê  só no cenário, mas não nos serviços. Na Grécia você facilmente encontrará música grega ao vivo por toda parte, iogurte grego, coisas típicas. Em Portugal, ouvirá fado, beberá vinho do Porto, e comerá bacalhau. Na Espanha, verá e ouvirá flamenco, comerá tapas e beberá sangria. Já aqui na Croácia, parecem coisas tão genéricas (festas regadas a música eletrônica de discoteca e comida fast-food por toda parte) quanto o público turista jovem que consome esses serviços.

Os croatas aparecem em cena basicamente alugando seus apartamentos (esqueça hotéis, aqui é tudo na base de AirBnB ou CouchSurfing, e o Booking.com te dará opções basicamente de quartos que os croatas alugam; é bom e vale a pena, mas guie-se pelas avaliações dos clientes anteriores, pois aqui tem malandro que gosta de passar gato por lebre). E há no máximo uma coisa ou outra característica daqui, como os crepes doces que são típicos do leste europeu. 
Crepes doces característicos do leste europeu. (Com os nomes devidamente traduzidos em outros idiomas, para o turista estrangeiro entender.)
    
Parece que a costa foi toda tomada de assalto; as pessoas locais tiram um trocado com essa clientela, mas não parecem participar muito. No geral você só sente que está na Croácia pelo cenário e pela paisagem, quase nada pela parte cultural humana. Não é que a cultura local não exista, é claro que existe, mas não a vejo ser integrada, constituir e fazer parte dessa economia do turismo. Parece-me mais espremida de lado, em troca de generalidades (seja a música eletrônica pop, a comida fast-food, e outros). 

Feita a minha crítica, não posso negar o charme do lugar. É como se ele por si só tivesse uma expressão própria que se oculta por detrás da badalação.  
Em Hvar.
Sossegadas ruelas de trás, em Hvar.
Num museu-mosteiro de belos jardins. Com o cartão postal de lá em mãos enquanto sentado na mureta para observar as árvores.

É semelhante à sensação que tive em Malta, outro lugar dominado por esse turismo europeu sem personalidade cultural própria.

As festas daqui você encontrará lá, noutros países da Europa ou no próprio Brasil. Não precisa vir à Croácia para isso. Aqui o que merece sua visita realmente são as vistas, o visual, o cenário. Você, no entanto, vai precisar ter uma conversa própria, íntima com ele, assim entre a Dalmácia e você, no tete a tete, um pra um. Quase não a encontrará nas pessoas; terá de conversar com as pedras.
Hvar.



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Split, Croácia: Beleza e legado romano na Dalmácia

Você sabe o que é um dálmata, mas provavelmente nunca se perguntou de onde vem o nome. Pois bem, dálmata é algo ou alguém originário da Dalmácia, até raça de cachorro. O nome foi dado pelos romanos à província que hoje é o sul da Croácia. É o que fica a leste da Itália, do outro lado do Mar Adriático (ver mapa abaixo). Estes antigos domínios romanos guardam ainda edificações da antiguidade e talvez o melhor preservado palácio romano do mundo, o Palácio de Diocleciano, do século IV, aqui em Split. (E você aí imaginando que todas as ruínas romanas ficavam na Itália, hein?)

Split, como Dubrovnik e outras cidades da Dalmácia, são destinos que combinam História, um mix de culturas, e talvez a região costeira mais linda da Europa. Isto aqui se tornou um dos destinos mais populares dos europeus no verão. A Croácia é o membro mais novo da União Europeia (desde julho de 2013), não adotou ainda ao euro, e ainda é relativamente barata. Ainda que as praias não se comparem ao que estamos habituados no Brasil, o mar em si é absolutamente lindo, como também as cidades são bem preservadas. (Pra quem não sabe, é aqui nesta costa, em Dubrovnik, que são filmadas as cenas de King's Landing, na série de fantasia medieval Game of Thrones). Falarei de Dubrovnik num post a seguir. Comecemos por Split, por onde entrei no país.
 
Onde é a Dalmácia. (Clique nas imagens se quiser ampliar)

Eu cheguei num voo vindo de Roma. A Croácia em geral guarda muitas semelhanças com a Itália, mas recebeu fortes influências centro-europeias (da época em que foi domínio dos reis húngaros e dos imperadores Habsburgo da Áustria), e tem aquele jeito reservado meio quieto dos eslavos, e a frequente lindeza dos seus olhos claros.


A cultura em geral aqui é uma mistura de influências, compartilhada também pelos países vizinhos, que também eram unidos na antiga Iugoslávia (cujo nome significa "eslávia do sul", para distingui-los dos demais eslavos mais ao norte, como russos, poloneses ou tchecos). Hoje são Eslovênia, Croácia, Sérvia, Bósnia, Montenegro, Kosovo, e Macedônia  uma cesta de países pequenos e parecidos! A religião talvez seja a principal diferença. Os croatas são em geral católicos; sérvios e montenegrinos são cristãos ortodoxos; e os bósnios são em sua maioria muçulmanos. Do contrário, todos falam praticamente a mesma língua, se parecem, e se originam mais ou menos da mesma matriz histórica e cultural. (Mas cuidado se for dizer isso a eles. Por nacionalismo, bósnios dizem que falam bósnio, croatas dizem que falam croata, e assim por diante, ainda que a diferença entre as línguas seja talvez menor que do entre o português falado por um gaúcho e um baiano. Coisas do nacionalismo e da história de conflitos entre vizinhos que eles aqui têm). 

A Croácia, por ser a mais próxima da Itália, herdou junto com o catolicismo romano, a pasta italiana, e muito da mesma arte e da arquitetura. Estas cidades, além da antiguidade romana, foram por séculos semi-independentes, entrepostos comerciais costeiros filiados à República de Veneza. Split começou como Spálathos, povoado grego, depois Spalato, da influência italiana, e por fim Split.
Representação da época romana no centro histórico de Split.
Cheguei com fome. Fui atrás de algo para comer logo no aeroporto. Não espere grandes coisas aqui nesse campo. 
 "Quais os recheios desses salgados, por favor?", perguntei em bom inglês, que eles aqui falam sem grande dificuldade.
 "Ham and cheese, bacon and cheese, salami and cheese...", respondeu-me o cara atrás do balcão com aquele ar mecânico de pessoas já saturadas de repetirem a mesma coisa.
 "Alguma coisa sem carne?"
 "Cheese".

É, a diversidade gastronômica aqui não parece lá muito grande. Mas falaremos mais disso depois.

Uma das minhas primeiras vistas de Split, quando cheguei.
Split é a segunda maior cidade da Croácia, atrás da capital Zagreb (aqui), mas o seu centro histórico, coração da cidade, é relativamente pequeno. Tudo pode ser feito à pé, e você se perde gostosamente pelas ruelas dessa cidade de pedra. Se for no verão, não faltará gente, e pode engarrafar um pouco. Mesmo assim dá sempre para encontrar aqueles recantos mais afastados, escondidos, e quietos. 
Nas quietas ruelas de Split, pelas edificações em pedra.
Muitas vezes há restaurantes com agradáveis mesinhas onde se sentar para um café, uma refeição, ou uma sobremesa.

É quase um parque temático, só que verdadeiro. A influência romanesca está por toda parte, e o centro do centro são as ruínas do Palácio de Diocleciano. Esse imperador romano do século III era nativo aqui da Dalmácia, e mandou construir uma fortaleza aqui em Split para quando se aposentasse. (Sim, os imperadores romanos podiam transferir o poder antes de morrerem). Diocleciano governou de 284 DC até 305 DC, quando se aposentou em 1 de maio, que  muito antes de vir a ser o Dia Internacional do Trabalho, no século XIX  era um antigo feriado europeu de celebração da primavera. 

Diocleciano venceu um número de batalhas nas fronteiras do império, mas perdeu a que mais cara lhe foi: contra o cristianismo. Diocleciano esteve à frente da maior perseguição aos primeiros cristãos no império romano. De 303 a 311 DC, houve um número de leis (éditos) restringindo direitos aos cristãos, destruição de templos e, basicamente, execuções por métodos variados como queimar vivo. Nessa foram martirizados São Jorge, Santo Expedito e outros. Mas essa perseguição foi também a última, pois com Constantino poucos anos depois o império viria a abraçar o cristianismo como sua única religião oficial (em 324 DC).  
A Última Oração dos Mártires Cristãos (1883), do pintor francês Jean-Léon Gerôme, representado a perseguição às comunidades cristãs nos tempos romanos.
Diocleciano viveu no seu palácio aqui em Split de 305 a 311 DC, quando morreu, aqui mesmo, aos 66 anos de idade.

Ocupante à parte, o palácio é lindo e ainda restam belas estruturas em mármore (arcadas, colunas) muito bem preservadas. Há também interiores, parcialmente no subterrâneo, bem preservados. 
Estruturas em mármore ainda preservadas do Palácio de Diocleciano.
Arcadas romanas.
Interiores do antigo palácio, hoje transformados em banquinhas de souvenirs.
Pra que ninguém ache que brasileiros são os únicos a descumprir as regras.
Fundações do palácio, que podem ser visitadas a um custo.
Com cara de romano sobre as ruínas do palácio.
A maior novidade inserida neste complexo é a torre de arquitetura romanesca da catedral construída aqui no século VII, bem sobre o mausoléu de Diocleciano. (Não sei se foi uma revanche). Seja como for, a Catedral de São Domnius (não confundir com Domingos), em homenagem a um dos muitos santos cristãos executados durante a perseguição de 303-311 DC (ele, aqui na Dalmácia), é hoje a mais antiga catedral católica do mundo a permanecer em uso na sua estrutura original

É talvez o ponto mais marcante da cidade, e que serve também de orientação. Você pode subir se tiver pernas e paciência pra esperar a fila. A escada também é apertada (eu taquei a cabeça na pedra), mas a vista vale a pena.
Torre da Catedral de São Domnius, erigida no século VII aqui nas imediações do antigo Palácio de Diocleciano.
No alto através das colunas da torre.
Se tiver medo de altura, passe longe.
Mas se não tiver, aproveite a linda vista da baía de Split.
Como você é capaz de imaginar, este é um ambiente pra lá de agradável. As manhãs são frescas e de sol. Não são como as do litoral do Brasil, onde 7h da manhã já está começando a fazer calor. Não. As daqui são menos úmidas, mais refrescantes.

A comida, ainda que não seja exatamente o ponto forte daqui, tem seus pontos positivos. Corra atrás dos quitutes eslavos de café da manhã feitos com frutas temperadas, como as aqui chamadas "frutas do bosque" (no Brasil conhecidas como "frutas vermelhas", embora nem todas sejam vermelhas). Vá na feirinha aqui do centro e você as encontrará, juntamente com croatas simples e pobres. Às vezes são meio ranzinzas, mas lembre que eles viveram a guerra nos anos 1990. São também amáveis, muitas vezes.
Feirinha livre em Split. Nestes países mais pobres da Europa do leste é que você muitas vezes encontra o melhor. Na Europa Ocidental a coisa já está muito industrializada, com aquele "sabor" de fruta de supermercado.
Vendedora.
Maravilhosas framboesas.
E o que não faltam são apresentações públicas (teatrais da época romana, música ao vivo...) e vida noturna. Basicamente, como outros lugares da costa da Dalmácia, no verão a vida aqui não pára nunca.

Do Calçadão Riva, à beira-mar, a todas as ruelas do interior, a estadia é pra lá de agradável. E o mar está logo ali, aguardando você para embarcar a uma das muitas ilhas da costa. Foi o que fiz, a seguir. Por ora fiquem com mais do visual de Split.
Soldados romanos, com alguém representando Diocleciano e sua mulher, ali atrás. 
O fuzuê gostoso das ruas no centro de Split.
O palácio e a torre à noite, à luz da lua cheia.
A beira-mar, com o Calçadão Riva ali entre as palmeiras. Aqui em Split, no verão, a noite é sempre uma criança.



sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O café mundo afora: Para apreciadores da bebida e curiosos de plantão


Café, um dos elementos mais populares e adorados na gastronomia mundial. E cada vez mais. O café é nativo da Etiópia, no nordeste africano (no chamado "Chifre da África"). Diz a lenda que um pastor etíope notou suas cabras animarem-se quando comiam do fruto de um certo arbusto, e certo dia resolveu experimentar. Os árabes, que faziam comércio nessa região, depois abraçaram a ideia e difundiram a bebida pelo Oriente Médio. O registro escrito mais antigo sobre o café data do século XV, no Iêmen, sul da Península Arábica, onde ele era consumido num mosteiro islâmico sufi (ver aqui se você não faz ideia do que se trata). No século XVI, o café começou a chegar à Europa pelos portos de Veneza e trazido nas conquistas turcas dos Bálcãs (o sudeste europeu). Em 1600, opositores o levaram ao Papa Clemente VIII para banir essa "bebida muçulmana". Mas o papa, em vez disso, aderiu ao café, e disse que a bebida era cristã também. 

Daí foi uma expansão global que prossegue até hoje. Atrevo-me a dizer que, mundialmente, o café é a bebida Número 1 depois da água. Em volume, chá e cerveja são mais consumidos, mas volume não é indicador de preferência, e nem faz sentido comparar café e cerveja por quantidade. Além disso, a cerveja é quase restrita ao Ocidente, e o chá tem comparativamente poucos entusiastas fora do Oriente. Já o café, do México ao Japão, passando pela Europa com suas charmosas cafeterias italianas e francesas, e por todo o mundo islâmico onde as bebidas alcóolicas são impopulares ou proibidas, tem centenas de milhões de adeptos e uma cultura crescente. 

Mas como é realmente o café mundo afora? Como de costume, não espere de mim um artigo típico de revista, que só exalta coisas positivas. Faço questão de dizer também o que não gostei e de passar a minha opinião sincera. Você vai se surpreender com algumas bizarrices, e se encantar com outras particularidades interessantes. Comentarei os que, na minha opinião, são o mais famoso, o melhor, o pior, o mais caro, o mais estranho, o mais tradicional, e o mais sofisticado que já tomei.

Foto na parede de uma cafeteria onde eu estive em Nápoles, sul da Itália.
O mais famoso no mundo é sem dúvida o café italiano, ainda que na Itália provavelmente não haja um único pé de café. Tornou-se uma das assinaturas culturais do país. E é bom; a fama não é em vão. Afinal, ainda que não produza grãos de café, a Itália tem sido a principal maestra mundial em ditar como consumir o café: espresso, cappuccinocafé latte, café machiatto, etc. É a principal origem da onda gourmet também (no que diz respeito ao café), que chega até mesmo a países onde a bebida tem tradição popular, como o Brasil.

Porém, contudo, no entanto, todavia, prepare-se pois o café na Itália frequentemente é desgraçadamente pequeno. Não espere o mesmo tamanho dos espressos do Brasil. Às vezes, de tão pequeno, quando você leva à boca já está frio só do contato com a xícara. Isso já me ocorreu várias vezes na Itália. E não foram poucas as vezes em que tive que pedir um segundo espresso, pois o primeiro mal coube no buraco do dente. Está certo que qualidade é mais importante, mas uma quantidade mínima é necessária, senão é um engodo. (Mais comentários sobre a gastronomia italiana aqui).   


Por isso que, pra mim, o melhor é o café de Portugal, que em nada fica devendo na qualidade, e não há mesquinharia. De quebra, ainda é barato. (Com um pastel de Belém então, fica uma maravilha.)


Por todo o sul da Europa você encontra variantes boas. Acho legal quando fazem adaptações nacionais, senão vira colonialismo cultural. (E a gente do Brasil então que tem um complexo histórico de vira-lata...). Abaixo um mostruário da Espanha, com os principais tipos italianos  que estão largamente difundidos por toda a Europa  e e mais alguns criativos.

Percebam que os cappuccinos europeus capricham na espuma de leite. Normalmente é muito mais do que a figura sugere. Pra você chegar ao café, é tipo como extrair petróleo do pré-sal. 

Já o norte da Europa prima mais pela quantidade do que pela robustez do café. As porções normalmente são grandes, de até meio litro naqueles copos plásticos estilo Starbucks. Quem já visitou, sabe. Inclusive, quando o café está forte, há quem adicione água para diluir. Já cansei de ver isso entre alemães e holandeses aqui em Amsterdã, onde moro há sete anos.  Na Suécia e em outras partes da Escandinávia, é comum inclusive que o café seja free refill, ou seja, você paga uma vez e recarrega quantas vezes quiser. Muitas vezes é "chafé", daqueles que dá até para enxergar o fundo da xícara.


A Europa do Leste, por sua vez, tem uma visão meio negativa sobre o café. Você encontra dessa versão rala e, em alguns lugares, as versões goumet italianas cada vez mais populares. Mas nesses países o café ainda sofre um estigma e é normalmente visto como um vício, tipo o fumo. (Por que? Porque de fato a cafeína vicia). Grosso modo, beber café na Hungria ou na Romênia é tipo como nós, no Brasil, vemos o hábito de fumar. 

Mas vá chegando mais para o sul, até a Grécia ou a Turquia, e a visão novamente se transforma. Na Grécia, por toda parte você vê o café gelado estilo frappé, batido frio naqueles copos de milkshake do Bob's (plásticos transparentes com tampa redonda e canudo por dentro). E há a versão tradicional, que a Grécia compartilha com a sua vizinha Turquia e outros países da região. É o café tradicional de toda a região que era Império Turco Otomano, de antes de o café se difundir pelo Ocidente. 

Esse café turco  ou grego, ou bósnio, era tudo parte do império turco mas hoje cada um puxa o estilo do café pra si  é o mais tradicional que já tomei. Primeiro, o pó tem um sabor distinto porque o método de tostagem é diferente. Segundo, ele não é filtrado. Vem o pó na sua xícara, assentado no fundo, e você deixa o último dedo sem tomar. Por isso é preciso dizer de antemão o quanto de açúcar vai querer, pois se adicionar depois e mexer, mexe pó com tudo e aí precisa esperar ele assentar de novo. 
Café tradicional sendo preparado na Grécia, na casa de uma amiga na Ilha de Creta.
Café ao estilo tradicional turco na Bósnia. Você bebe nessa porcelana pequena sem alça. Devido ao formato do recipiente de metal, o pó fica preso no fundo em vez vir demais para a sua "xícara" quando você vira. E ali no palito um lokum (ou Turkish delight ou manjar turco, como é conhecido no Ocidente), doce tradicional turco para acompanhar.

É daí que surge a antiga tradição árabe e turca de ler o futuro na borra do café (cafeomancia). Você põe o pires sobre a xícara, vira de cabeça pra baixo, e deixa um tempo. A maior parte da borra cairá sobre o pires, mas parte fica aderida nas bordas da xícara, e é lá que você "lê" a sorte da pessoa com base nas formas que ficarem. Vai girando e vendo os sinais. 


Noutras partes do mundo islâmico, como no Marrocos, você vê muito o café com especiarias  chicórea, cardamomo, canela e outros. A ideia é melhor do que o resultado, pra o meu gosto. Fica um café com um sabor meio "engraçado", com um azedinho puxado aqui, outro ali. Mas há quem goste. 
O pó que fica no fundo. Esse aí eu não havia virado no pires. 

Já o que eu não consigo engolir (figurativa e literalmente) são os cafés com essências artificiais da América do Norte. Pra mim, o café na América anglófona é disparado o pior no mundo. Digo anglófona para ser específico, pois o México tem outra tradição e o Canadá francês (em particular a Província de Québec) também tem uma cultura e gastronomia muito diferentes das dos vizinhos, e muito mais próximas às francesas. 

Morei dois anos perto de Toronto, no Canadá anglófono, e convivi diariamente com bizarrices do tipo café com sabor artificial de nozes, café com aroma e sabor de caramelo, e o meu favorito: a quimera café com sabor de framboesa ao chocolate. Eu não resisti; comprei e tomei por puro espírito etnográfico. O negócio é tão ruim quanto você imagina, com aquele gosto de framboesa de pasta de dente. Uma descabida ofensa à framboesa, ao chocolate, e ao café.

É o mais estranho? No gosto, sim. Na apresentação, não. Foi no Japão que tomei o café mais peculiar de todos, em latinha que sai aquecida da máquina de venda automática. Dá aquele toque do alumínio na boca, e a sensação de você ser um astronauta ou já estar num futuro de ficção científica meio distópico onde a comida é toda industrial  como nas obras futuristas cyberpunk que os japoneses tanto gostam de produzir. Não é sem base; o dia-dia deles parece já estar a meio caminho de lá.
O gosto é o de bebida processada de máquina mesmo. Não tem nem comparação com um café feito na hora. Mas quem não tem cão, caça com gato. No Japão é muitas vezes só o que está disponível.

Já outras vezes você encontra no Japão café que não é de lata, mas cuidado, pois foi aí que eu paguei pelo café mais caro de toda a minha vida até o momento: R$ 25 a xícara, no sofisticado distrito de Ginza, em Tóquio. Mas o café em si de sofisticado não tinha nada. O que tomei feito por mim mesmo hoje aqui em casa de manhã foi melhor. (Moral da história: no Japão, evite café. Opte pelo chá verde, que eles lá fazem muito bem.)

Falando em sofisticação, foi também na Ásia que tomei o café gourmet mais sofisticado de todos, o mais caro do mundo, o único e inesquecível café luwak. Inesquecível não pelo sabor, mas pelo modo como é feito. O café luwak é produzido na Indonésia, mais precisamente na ilha de Sumatra, onde vive um bichinho chamado luwak (um pequeno mamífero primo do suricate). O bichinho come os grãos de café e os defeca quase intactos, agregando a eles no caminho pelo seu trato digestivo um sabor todo especial. Os grãos daí então são coletados e limpos manualmente (dizem). 

Paguei mais do que ouso admitir nesse pacote de café luwak aí abaixo. (Se não for caro, é enrolação. Abundam na Indonésia marcas com o nome "luwak" mas sem ser realmente o café luwak. Você distinguirá o verdadeiro pelo preço, absurdamente mais caro, e pelo certificado dourado com número de série que vem dentro.)


Verdade seja dita, não notei diferença alguma no sabor. Pareceu-me simplesmente um café bom, cujo preço é mais pelo exotismo do método de produção do que por um sabor realmente superior. Ou me perdoem o paladar pouco apurado. Seja como for, o efeito placebo de você saber que está tomando um café cujos grãos foram coletados na bosta lhe dão, realmente, uma sensação única. 

O idiosincrático café luwak, da Indonésia, o café gourmet mais caro do mundo. Porém, defensores dos animais, evitem. Depois eu descobri que a criação dos luwak em cativeiro para fabricação do café não é nada bonita.

Onde ainda falta conferir? Faltam-me ainda alguns países importantes, como a Etiópia, a terra de origem, o Iêmen, de onde primeiro se popularizou, e na América Latina faltam-me a Colômbia e a Costa Rica, também famosas pelo seu café forte. Sugestões outras são bem vindas!

Passei por muitos países de café insosso e inexpressivo, como o Chile, o Irã, a Rússia e outros que ainda utilizam sobretudo o café solúvel (tipo Nescafé), com aquele gosto aguado e azedo. Prefiro os "pingados" de rodoviária brasileira, que pelo menos são autênticos. Mas no geral, a tendência mundial me parece claramente de expansão da "cultura do café", como chamam aqui na Europa. Espero que o Brasil não fique pra trás, pois o que não nos falta é criatividade própria  ou café.

Com uma amiga alemã no casamento de uma amiga indonésia, na Holanda. (Não, o café não era luwak). E viva a mundialidade.