sábado, 15 de novembro de 2014

Ljubljana, Eslovênia: Da birita de mel à Ponte do Dragão


Poucos brasileiros sabem localizar a Eslovênia no mapa, e menos ainda a incluem em seus roteiros de viagem. Um erro. Ljubljana [lê-se Liubliana], a capital eslovena, é uma das cidadezinhas mais charmosas da Europa. Não tem o glamour ou a fama de Paris ou Viena, mas tem bem menos turistas — e, por isso, oferece uma experiência bem mais autêntica, na qual você pode interagir com as pessoas, sentir tranquilamente os locais, e sossegar. Uma pequena joia que está aos poucos caindo no gosto dos demais europeus.

Eu vim até cá para o réveillon, como já relatei (aqui). Mas fiquei devendo a minha experiência pela cidade.

Havia passado o Natal, e Ljubljana não foge à regra quanto às encantadoras feirinhas natalinas de artesanato e comidas/bebidas típicas que tomam conta das praças da Europa Central à época. Aqui, muita coisa em madeira, salsichas fritas (influência austríaco-alemã), e o álcool típico da Eslovênia: uma birita feita com mel chamada medica (não, não é médica; lê-se medítsa).  
Feirinha de Natal em Ljubljana.
Eslovenos vendendo medica.
O álcool não é feito de cana e nem de grãos, mas de fruta, como a palinka húngara. São destilados que às vezes depois são misturados a outra coisa — neste caso, mel. Fica bem doce. Eu não sou de beber, mas gostei. Tem uma textura meio densa por causa do mel. Experimentei um também misturado com mel e pimenta malagueta. Loucura. Parece que a sua língua vai cair.

Pelo caminho também se encontram muito as castanhas portuguesas assadas. Embora nós as chamemos assim, elas são comuns por toda a Europa no inverno. Uma delícia.
Castanhas portuguesas assadas.

Circulei por esses lugares experimentando de quase tudo. Por influência alemã, há também o vinho quente com especiarias (o que chamam de quentão no sul do Brasil). Como fiz esta viagem sozinho, as horas se passavam comigo zanzando pela cidade, observando aqui e ali, e interagindo com as pessoas quando possível.

Foi numa dessa que me detive no Le Petit Café, na Praça da Revolução Francesa (Trg Francoske Revolucije). O café tinha um ambiente agradável, interior muito bem decorado com recortes de jornais franceses antigos, quadros impressionistas, flores, e ainda uma arvorezinha de Natal. Só que, preferindo o ar fresco ao calor do aquecedor, eu ia me sentar ao lado de fora. Mas aí — daquelas coisas — apareceu de repente aquela bela eslovena a sentar-se bem à mesa adiante de mim,  o que melhorou a visão. O que são recortes de jornais franceses e quadros de Van Gogh, afinal? De repente o interior estava caloroso e aconchegante, ao invés de quente. 

Segui tomando o meu café, e não demorou a chegar o seu colega de escola de música. Os papeis em cima da mesa os denunciava. O menino com cara de bobo e a menina graciosa — cena tão típica, e real. Ele visivelmente mais interessado nela do que ela nele, e eu ali espiando a reprise daquele filme tantas vezes já visto, e do qual acho que também já fiz parte. Mas vai ver eu estava enganado. A conversa era em esloveno, e ao terminar o meu omelete, segui à cidade. 
Le Petit Café.


Ljubljana tem um belo castelo, aonde se sobe por um "plano inclinado" e de onde se tem uma bela vista da cidade. Vale a pena. Embora as masmorras do castelo sejam pequenas e ele não impressione tanto quanto outros castelos da Europa, há um interessante museu sobre a história da Eslovênia, uma capela, e a vista. 
Vista da torre do castelo de Ljubljana. O pátio do castelo e, mais adiante, a cidade.
Ljubljana vista do alto.
No Castelo de Ljubljana, com a cidade atrás.
Dos antigos muros do castelo.

Mas é do chão que você realmente se apercebe do charme da cidade. As ruas são belas e pacatas, com o casario da era moderna dos séculos XVIII e XIX, época ainda do domínio dos Habsburgo da Áustria. Foi em homenagem ao imperador austríaco Francisco José I (Franz Joseph I, 1848-1916) que erigiram a famosa Ponte do Dragão em Ljubljana — que alguns hoje apelidam de "a sogra", devido às criaturas. Data de 1901, feita sob o nome de Ponte do Jubileu do Imperador Francisco José I. Ganhou o nome atual só em 1919, com o fim da Primeira Guerra e a independência destas terras — que viraram então parte da Iugoslávia, até a separação da Eslovênia em 1991. Hoje virou símbolo da cidade.
Há quatro dessas estátuas na Ponte do Dragão, em Ljubljana.
Ponte do Dragão à noite. 
"A sogra", como dizem alguns eslovenos.
A ponte é sobre o Rio Ljublianica [lê-se Liublianítsa], que agrega ainda mais charme à cidade. As fotos não me deixam mentir. Como na maioria das cidades europeias, muita coisa pedestrianizada (ou seja, vetada a carros).






Já num outro café, pus-me a conversar com o garçom. Era também o dono, eu descobri. Queixava-se da falta de neve neste inverno, o que era ruim para os cultivos — pois a neve resguarda as raízes das plantas e as protege do ar seco. Resultado da mudança climática global. Talvez pelo pensamento crítico em mente, avistei numa outra mesa um senhor que era a cara do Slavoj Žižek [lê-se como se fosse Jijék em português, pois o Z com chapéu invertido tem som de J nas línguas eslavas]. Pra quem não conhece, Slavoj Žižek é um dos maiores pensadores críticos da atualidade. Como ele é esloveno, pensei que fosse ele. Chega tomei um susto e quase fui buscar um autógrafo. Mas não era. O garçom riu. 

Depois de alguns dias tranquilos e agradáveis em Ljubljana, era quase hora quase de encerrar esta viagem. Porém, ainda me faltava um destino nesta breve jornada pela antiga Iugoslávia: Zagreb, a capital croata.


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O Acre existe, e eu vim conhecer

Minha morada em Rio Branco.
Sentei-me a uma tacacazeira, quando de repente apareceram as tias. Procuravam uma mesa. Não havendo mesa alguma vaga, propus que se sentassem comigo. Sendo tias, comunicativas, com aquelas caras de que já gostam de conversar, sentaram.

— "Só a gente mesmo pra tomar tacacá num calor desse, né?", perguntou-me uma das duas tias, risonha, enquanto enxugava o suor da cara com os guardanapos de papel da mesa — e me tomando por acriano.

— "É! Precisa coragem mesmo!" — respondi eu, meu sorriso cúmplice dizendo mais que as palavras.

Logo chegaram as generosas cuias de tacacá. Pra quem não conhece, o tacacá é um prato típico da Amazônia brasileira. Patente do Pará ao Acre. Trata-se de um caldo quente feito com tucupi (um sumo extraído da mandioca), temperos, goma de mandioca, camarão seco, e folhas de jambu. (Vê aí quanta coisa você possivelmente não conhece). As folhas de jambu são especiais, pois elas têm o poder de deixar sua boca dormente e a língua formigando. É um barato.

A minha reação ao tacacá será melhor descrita a seguir através das fotos. Ele é tipicamente servido por uma tacacazeira, a equivalente amazônica da baiana do acarajé. Só que sem indumentária típica — só mesmo os braços grossos de mexer caldeirão. Tomar tacacá aqui é um programa de fim de tarde, quando ainda está aquele sol e as gotas de suor da sua testa podem imitar a maçã de Newton e juntar-se à sopa. Eita delícia.
"Tacacá do Toinho", mas na verdade a regente da coisa é a tia ali.
Meu tacacá, já à noitinha. Aqui no Acre usa-se o garfo para catar os sólidos. No Pará usam-se palitinhos. 
Pré-contato. Ali no frasco é um molho de pimenta. As reações a seguir foram capturadas sequencialmente pela amiga minha que estava com a câmera.
Barato do jambu na boca. 
Essa cuia que vocês veem foi o pequeno. As pessoas aqui tomam verdadeiras bacias de tacacá. O grande tem uns 50% a mais de diâmetro. Esse eu acabei dividindo com uma amiga.

A primeira reação aos não-iniciados é a Tocata e Fuga, seguida por Allegro non molto, e depois um crescendo do gosto forte um tanto acre do caldo, do sal do camarão seco, e do barato do jambu na boca. Dizem que é um gosto adquirido (ou seja, daqueles que você aprende a gostar — ou não). Não me apaixonei, mas eu não podia vir à Amazônia sem experimentar.  

Mas nem só de tacacá vive o homem, nem mesmo os amazônicos. O Acre é desconhecido da grande maioria dos brasileiros, mas lhes digo que é um lugar maravilhoso, pelo pouco que vi. Não pude ir à floresta, mas o entorno de Rio Branco já é rico em verde. E o povo, nestes 10 dias desde que cheguei aqui, já ganhou o meu coração. Os acrianos (é, se escreve assim mesmo) falam uma melodia semelhante à dos nordestinos, às vezes arrastada, mas sem a pronúncia de "titio" dos pernambucanos. Parece mais os sotaques da Bahia, do Ceará ou do Maranhão. São extremamente amistosos e comunicativos, como no interior do Nordeste. Ouvi a história de um Suíço que esteve aqui, ouviu estranhos tratando-se por "minha linda" e "meu amor", e disse que se fizesse isso na Suíça seria processado por assédio.

Basta ir uma vez à lanchonete e você já conhecerá quase todo mundo pelo nome, e eles também te tratarão pelo nome, se você der o seu. Facilmente você pede coisas que não estão no cardápio ou eles te fazem um especial. Personalização ao extremo, na maior simplicidade e amabilidade.
Numa lanchonete em Rio Branco. "Educação e bons modos fazem bem, deixam seu dia melhor e aqui te dão desconto!"

Eu quando cheguei a Rio Branco era meia-noite. O tráfego aéreo no Acre atualmente está todo nesse horário. Mas as instruções eram claras: pedir ao táxi que virasse à esquerda no segundo ramal (estrada de chão para os acreanos) após o motel na pista, até chegar à casa de uma amiga da amiga de um amigo meu. Uma casa afastada do centro, com os prós e contras de estar mais imerso na natureza.

Cheguei sem problemas, abaixo pela ladeira enlameada que eu só veria direito no dia seguinte. Uma bela casa de madeira, de seringueiro, circundada de verde. Pela manhã, formigas faziam-se onipresentes em todos os meus bens alimentares, desde as garrafinhas de leite de côco que estavam na mochila (pra fazer moqueca) quanto no bolso da calça onde eu havia guardado uma inocente bala. Era como estar em algum filme de horror do Hitchcock, enfiando a mão no bolso e tirando-a recoberta de formigas. Das botas saíam revoadas de mosquitos como se fossem aves de arribação após ali pernoitarem. Aranhas caranguejeiras no jardim, e mais da presente biodiversidade amazônica. 

Mas não se assustem. Você aprende a conviver, como convivem milhões de pessoas aqui e mundo afora. Nosso urbanismo é que cria essa bio-fobia tão comum hoje em dia. Não que eu goste de mosquitos, mas dá pra evitá-los com telas, mosquiteiros, ou ar condicionado. Além do mais, havia o lado mais amistoso da biodiversidade (esta não muito amazônica): a simpática cadela Bolota e uma pequena e manhosa gata sem nome. Além deles, Ivi e Guilherme, meus hospitaleiros anfitriões. Eis a nossa humilde residência (também retratada na primeira foto).
Barranco abaixo, o caminho de casa.
Bolota ali na varanda, e uma cadeira de balanço do vovô seringueiro. Descanse em paz, Chico Mendes.

Aqui é preciso habituar-se também ao suor. Basta sair à rua, andar um pouquinho, e você estará encharcado como se tivesse jogado uma partida de futebol. Depois seca no ar condicionado da primeira repartição onde você entrar. 

Se você não se encharcar de suor, se encharcará com as chuvas torrenciais à moda equatorial. (Agora mesmo, enquanto vos escrevo, cai um toró há quatro horas e que não dá sinais de que vai passar. Ainda estou sem querer pensar muito em como vou chegar ao ponto de ônibus e nem no sebo que deve estar a minha rua). Clima amazônico pra você; só que aqui, ao contrário do Pará, a chuva não parece ter horário certo. (Inserção posterior: A rua estava mesmo um sebo. As minhas botas ficaram enlameadas como as do Texas Ranger, e descendo de noite eu vi a hora de tomar um tombo gostoso e escorregar ladeira abaixo). 

Foi dessa casa que fiz minhas incursões ao centro de Rio Branco. Lá tenho realizado meu trabalho de campo (entrevistas e análise das políticas acrianas de conservação florestal e desenvolvimento sustentável, que são referência internacional), e, é claro, aproveitei pra conhecer um pouco das coisas do Acre.

A cidade não é grande (360 mil pessoas) e nem particularmente estonteante, mas é mais arrumadinha que a maioria das cidades brasileiras, e tem áreas bonitas. O rio Acre, que corta Rio Branco, é mega-barrento e nada atrativo. Por outro lado, Rio Branco tem belas praças, parques, uma biblioteca pública super moderna (com wi-fi gratuito), e áreas agradáveis — embora não seja lá uma cidade muito badalada. As pessoas aqui reclamam de que não têm muito onde gastar o dinheiro. (Não sei se por isso, mas as coisas aqui não são muito baratas. Uma cuia de tacacá sai de RS$ 10-15, e um suco R$ 5 ou 6, enquanto que lá em Feira de Santana eu pago R$ 3).
O nada atrativo rio Acre, que corta Rio Branco. Algumas casinhas antigas ali do outro lado.
O Palácio Rio Branco, a sede do governo do estado.

Catedral de Nossa Senhora de Nazaré.
Interior da catedral.
Mercado Velho, de estrutura semelhante aos encontrados Nordeste afora vendendo artesanato e comidas típicas. 

Você pode sair da catedral e ir atrás de uma baixaria no Mercado Velho. Baixaria é algo típico do Acre: um misturão de cuscuz, ovos e carne moída, comido aqui muito no café da manhã.

Eu, como não como carne, dispensei a baixaria. Preferi um açaí, também típico. O ledo engano foi achar que o açaí aqui é servido como no lado de lá do Brasil. Aqui "açaí cremoso" é ele misturado com leite condensado e creme de leite. É gostoso, mas bastante doce. "Pelo menos esse é feito com a polpa de verdade", retrucou uma amiga local. "Aquele negócio lá parece uma raspadinha. O que menos tem é açaí. É mais banana e xarope de guaraná". Esculhambou logo. Acho que ambos têm seu lugar, mas são bem diferentes. Se vier aqui, saiba o que vai encontrar.
Banana e granola por cima como no açaí vendido Brasil afora, mas não se engane: o que vai por baixo é bastante diferente. E aqui foi também leite em pó por cima.


Meu beiju com ovo de de manhã, aqui vendido como tapioca, e um delicioso suco de cupuaçu numa agradável birosca do centro de Rio Branco.

Tapioca aqui é igual pão, servida ao café da manhã nas mais diversas combinações, como em muito do norte-nordeste do Brasil. Fiz uma rotina de fazer as refeições na rua, no meio do povo. Muito mais legal. Em uma semana já tenho uns 3 points de café da manhã. O meu favorito atualmente é o de Dona Maria e Santiago, que deve ser o filho ou sobrinho. Todo mundo conversa com todo mundo como se já se conhecessem de longa data. Não tem coisa melhor do que chegar lá já com um "E aí, Mairon, como é que tá você hoje, rapaz?", daqueles em que a pessoa presta atenção e pára pra ouvir a resposta, não o falado só por educação. 

Meus anfitriões viajaram, e agora estamos somente eu, cão e gato na casa. Vê-los juntos me seguindo pra lá e pra cá me faz sentir como em algum conto, daqueles onde você é a única pessoa, com os bichos. Como em Alice, ou nessas histórias  americanas de fazenda. 
Comendo pupunha, um fruto de palmeira. Tem gosto de inhame, só que um pouco oleoso. A foto foi tirada ainda com os anfitriões na casa.
Vida bem tranquila, me tem parecido. Bem comunidade. Pouco pretensiosa. Solidariedade ainda não muito maculada pelo individualismo. Ontem choveu outra vez e eu ganhei carona de uma senhora que eu nunca tinha visto na vida.

Como neste sábado já vou embora, hoje de manhã resolvi avisar no meu point de café. 
— "Se eu não aparecer, é porque tô viajando!"
— " Valeu, Mairon! Quando chegar de viagem, aparece aí, hein!", respondeu Santiago.
— "Pode deixar"


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Bled e a Eslovênia medieval


Bled é uma pitoresca cidadezinha da Eslovênia, com um castelo, um lago, e uma igrejinha numa ilhota do lago. É um dos mais populares destinos do país, e a apenas uma viagem curta (1h) da capital Ljubljana. Aqui visitei alguns cenários medievais bem idílicos, senti-me na Terra Média ou em Westeros, e de quebra ainda descobri a sabrage — a técnica de abrir champagne com um sabre — com um monge.

Ainda era começo de janeiro, portanto inverno na Europa. Tudo quieto, como transparece na foto acima. Pouco havia passado desde o réveillon, e Ljubljana continuava pacata. Na mesma rodoviária chinfrim onde eu havia tomado ônibus às Cavernas de Postojna no dia anterior (aqui), tomei hoje para Bled. O ônibus estava todo lacrado para evitar o frio invernal, com calefação no interior e aquele cheiro de estofado que já não vê o ar há algum tempo. Poucas pessoas iam comigo, umas 8, todos aparentemente eslovenos, quietos em seus cantos, e o único som era o rádio controlado pelo motorista. Continuava a aparente tradição retrô oitentista dos eslovenos que eu já havia experimentado na noite de réveillon (aqui).


Um dos hits do motorista.

Senti-me vetusto e remoto, não somente na geografia daquele lugar quieto, mas também no tempo, com aquela rádio saudosista.

Quando chegamos, a cidadezinha não estava mais viva que Ljubljana — nem menos cinzenta. Nos arredores da estação havia sinais de contemporaneidade: carros estacionados, asfalto, e sex shop. Mas conforme se caminhava adentro, esses elementos iam dando lugar a casas campestres mais simples e a mais árvores secas. Até uma trilha por onde se ia ao Castelo de Bled. Dava a impressão de que você estava entrando no quintal de alguém, não fosse a placa indicando Grad, castelo em esloveno.
Ruas da cidadezinha de Bled, no interior da Eslovênia, e a entrada da trilha para o castelo, ali à esquerda.
O Castelo de Bled é o típico castelo no penhasco sobre a cidadezinha e o lago. Tem fosso, ponte de madeira, pátios e capela. As referências escritas a ele datam desde 1011, mas algumas partes são mais antigas, e quase todas foram sendo renovadas ao longo dos séculos. Pertenceu ao domínio dos Habsburgo da Áustria desde 1278 até o fim do império, em 1918.
Vista do Castelo de Bled da margem do lago.

A trilha até o castelo vem por detrás, cortando uma floresta com um caminho de pedras. Era ainda de manhã e não havia mais ninguém. As brumas e o nublado davam um ar de atemporalidade: era como se o tempo não passasse, como se eu não soubesse o momento do dia em que estava, e isso não importasse. Você fica entregue aos sons da natureza e ao vento, sentindo-se ali como se estivesse em alguma obra de fantasia, ou retornado aos tempos medievais da Eslovênia, enquanto olha as árvores secas balançarem ao seu redor.
Trilha para o Castelo de Bled na quieta floresta.

Uma vez lá em cima, o cenário muda. Passam a haver caminhos de pedra feitos pelo homem como calçadas entrecortando as árvores. Um cachorro preto corria pra lá e pra cá. A vista lá do alto fica linda. Você enxerga toda a imensidão dos campos eslovenos, até onde as nuvens permitem a vista alcançar, o belo Lago Bled, e as montanhas dos Alpes ao norte. Mas pra ter as melhores visões é preciso terminar de subir e entrar no castelo.

A entrada é uma facada — talvez para te fazer sentir de volta à era medieval —, mas vale a pena pelos mirantes. O castelo em si não oferece muito além de si mesmo: há um pequeno museu de peças antigas mostrando um pouco da vestimenta camponesa de antigamente, um café, um restaurante... mas há a adega do Monge André, que ensina a fazer sabrage a um preço.

Subi. Entrei. Subi novamente. Atravessei a ponte de madeira e fui subindo o caminho curvo e íngreme que dava voltas nas muralhas até chegar aos pátios do castelo, de onde há vistas soberbas para o lago.
Entrada para o Castelo de Bled.
Pátios do castelo, hoje servindo como terraços para café.
A vista para o Lago Bled, do alto do castelo. 





Vista apreciada, fotos tiradas, sentei-me em busca de um cappuccino. Mas me deixaram esperando demais, e eu resolvi ir conferir a adega do Monge André. Eu havia lido sobre ele, e quando alcancei a adega — ali mesmo dentro do castelo — havia um casal tomando a aula de sabrage. Ao contrário do que você provavelmente pensa, abrir o champagne com o sabre não significa cortar o pescoço da garrafa num golpe. A abertura é feita com o lado cego da lâmina, numa pancada de baixo pra cima que arrebenta inteiro o pescoço. (Não, eu não quis pagar 50 reais para aprender a fazer isso. Nem sabre eu tenho em casa, e não acho que funcione com o facão. Mas cheguei a ver).

A prática surgiu, conta a lenda, durante as campanhas napoleônicas. O sabre era a espada leve típica da época das cavalarias, e — segundo dizem — a arma favorita de Napoleão. Virou hábito, assim, que seus soldados os usassem pra abrir o champanhe nas celebrações. Napoleão dizia que o champanhe é sempre necessário após a batalha: seja para celebrar, seja para afogar as mágoas de uma derrota.
O monge André acompanha o enchimento de uma garrafa com vinho do barril.

Encerradas essas distrações no alto do castelo, desci para ver o lago mais de perto. Da margem se pode tomar um barco caro (12 euros ida e volta) ou remar até a ilhota, onde há uma igreja, uma cafeteria, e a sensação de se estar numa ilha no lago. Esta última era a mais preciosa.

A descida ziguezagueia na floresta numa bela escadaria de madeira. Muita gente subia e me perguntava se faltava muito para terminar. Um casal passava por mim já boiando enquanto seu cachorro subia animado.

A visão continuava pitoresca, e lá embaixo havia uma paz imensa em estar sozinho diante de um lago tão belo. Todo o movimento era o dançar das árvores ao vento e o dos patos cortando a água. Se você ainda não teve essa experiência de quietude invernal na natureza, busque-a. É das experiências mais íntimas que a Terra oferece.
À beira do lago, após a descida do castelo.

Mas breve o meu silêncio seria cortado por algo mais humano. Eu ia caminhando à margem do lago quando de repente ouvi notas de Sultans of Swing. Vinham de um abrigo de madeira ao longe. Me aproximei.



Três moças iam se aproximando do abrigo de madeira ao mesmo tempo que eu. Era um abrigo de canoas, com um rádio tocando. Eu não tinha pretensão alguma de remar sozinho naquela água gelada. Já tive experiência de virar canoa uma vez e meia (depois eu explico), e não foi legal (quer dizer, foi legal depois, pois viraram histórias, mas na hora é um inconveniente). As três italianas, no entanto, pareciam dispostas. Mas não estavam muito corajosas. Me diziam que nunca haviam canoado e perguntavam se era fácil, etc. Eu disse que poderia ser legal, mas mostrei que estava ventando no lago e que, se não sentassem direito na canoa, podiam virar. Houve aquela cara de incerteza quando apareceu o alugador de canoas. "Nããão, é bem tranquilo! Não há problema nenhum", chegou ele com aquela conversa de quem quer ganhar dinheiro. 

"Espero que vocês sejam boas sultanas do swing", me despedi. Resolvi seguir meu caminho antes de criar confusão com o cara. Mais adiante (o lago é grande!) achei um lugar onde comer e outro onde tomar um barco para a ilhota. A comida foi algo tão ordinário que eu sequer lembro o que foi. Apesar da natureza pitoresca, Bled está começando a ficar mais turístico e a vender essas coisas que se acham em qualquer lugar, como sanduíche ou pizza. Tomei então um barco pra 12 pessoas acompanhado de uma família australiana em que o pai era irmão gêmeo de Chuck Norris, só que mais velho. 

Quando nosso barco chegou à ilha, qual foi a minha surpresa ao rever as italianas, ofegantes e salpicadas. Pelo menos ninguém virou. Se divertiram. (Eu também, estando bem sequinho). Os australianos se dispersaram. Há barcos retornando com frequência, então o risco de ficar preso na ilha é pequeno. Há uma igrejinha e uma bela cafeteria com loja de souvenirs. A cafeteria com vistas para o lago é o paraíso para qualquer escritor.
Cafeteria na ilhota do Lago Bled.
Tomei um chocolate quente, comi uma fatia de bolo, e me pus a caminhar no arredor. Quase fico.