terça-feira, 18 de março de 2014

Pra não dizer que não falei dos doces, ou da parte moderna de Marrakech

O pó branco parecendo cocaína é açúcar refinado, e o outro é canela.

Laranja madura, na beira da estrada, aqui nem está bichada e nem há necessariamente marimbondo no pé. Na verdade, fora da medina há ruas belamente decoradas com laranjeiras nas áreas mais modernas de Marrakech. Parece o Brasil, só que todos os prédios têm a mesma cor, e há palmeiras e laranjeiras dando o toque especial. Muitas das laranjas vêm fazer parte dos doces que acabaram ficando de fora do post anterior sobre as comidas no Marrocos.

Como turista, às vezes a gente se apega à parte antiga (turística) e acha que aquilo é a cidade. É assim na Europa e aqui no mundo árabe não é diferente, com as medinas. É o mesmo que estrangeiro achar que o Pelourinho é Salvador, sendo que na prática é uma área aonde os soteropolitanos pouco vão.

Em Marrakech, a parte nova é chamada de Ville Nouvelle ("Cidade Nova"). Ela foi idealizada pelos colonizadores franceses, que fizeram do Marrocos um "protetorado" entre 1912 a 1956, daí o Marrocos ter o francês como principal língua europeia. A área foi se desenvolvendo após a independência (1956) e hoje é point de passeio tanto de turistas quanto de marroquinos de classes média e alta. A medina (que é onde o povão morava) ficou como comércio de baixa-renda e pra turista.  
Ville nouvelle, área mais moderna de Marrakech, com suas laranjeiras na calçada. Mais arrumada que muita cidade brasileira.
Ruas da ville nouvelle.
Como no Brasil, há os ambulantes. Este vendia grão-de-bico cozido, muito popular entre os marroquinos.
Os carros e motos são a mesma loucura que no Brasil, e ninguém pára pra você atravessar.

Caso alguém esteja surpreso de ver a moça ali de preto sem véu, saiba que aqui eles não são muito rígidos com isso. Sobretudo as mais jovens, estão muitas vezes sem véu (embora com os ombros e joelhos sempre cobertos). Acontece muito, por exemplo, de elas estarem às vezes com o véu e às vezes sem véu. As moças que trabalham aqui no albergue, por exemplo, usam véu na rua e aqui dentro tiram. Aí fazem exposição dos seus belos cabelaços castanhos ou negros. Os homens marroquinos, pouco acostumados, não conseguem ver um centímetro de pele exposta que já começam a babar, e se comportam igual a pedreiro de obra.

As mais jovens são também muito mais acessíveis que as já senhoras, que são quase sempre mais tradicionais e de cara fechada. Então acho que há um abismo generacional, parecido com o que se vê no Brasil entre quem foi criado antes dos anos 60 ou depois dos anos 60. (Por exemplo, é improvável que você jamais tenha visto a sua avó vestindo calças). As coisas aqui estão mudando.
Minarete da Mesquita de Koutoubia, perto da medina mas já na parte moderna da cidade. E jovens caminhando na calçada.

Por outro lado, é curioso notar como certas tradições se mantêm independentemente do conservadorismo ou da religião. Por exemplo, eu já havia notado nas viagens à Indonésia e à Turquia que em países muçulmanos é difícil ver cachorro. Não há cachorro, ou são raros. E a razão é que a saliva dos cães é considerada impura (bem, de certa forma é mesmo). Já os gatos estão livres pra circular à vontade, e o que você mais vê na rua é gato vira-lata. Você se depara até umas cenas meio "fortes", tipo filhotinhos de gato partilhando uma cabeça de galinha crua no canto da rua, essas coisas.
Esse é o refeitório do café da manhã. E esse é o gato mais pidão aqui do albergue. Há vários. Esse é aficcionado por manteiga.

Falando em refeitório, eu havia omitido os doces no post anterior. Depois me dei conta. Os doces aqui no Marrocos não são maus. São um pouco "padronizados", no sentido de que quase todos incluem amêndoas (ou nozes, ou afins) moídas e mel em alguma massa. É como leite condensado no Brasil, que vai em quase todos os docinhos, senão todos. Aqui eles são bem doces, então se você é daqueles que não gosta muito de açúcar, vá com calma.
Caixa de docinhos marroquinos.
Marroquina vendendo doces numa banca na praça.
Comendo os famosos cornos de gazela numa bodega hoje de tarde. O nome se deve ao formato curvo. São deliciosos, feitos com amêndoas moídas, açúcar e água de flor de laranjeira na massa. E, ao contrário de boa parte dos outros doces, esse tem pouco açúcar e não é enjoativo.

É também bem comum ter fruta na sobremesa, e acho que é estação de laranjas, então elas estão por toda parte. Vai até bolo de chocolate com laranja em cima e, meu filho, é bom, viu.
Bolo de chocolate com laranja, e rodelas em cima.

Esse aí eu comi ontem no jantar, naquele mesmo refeitório do gato. Tocavam umas músicas Anos 70/80 (tipo Sweet Child O'MineHotel California, etc.), e afora o bolo e as músicas, a minha atenção se dividia entre a simpática garçonete, Khalima, e o dono do albergue, um senhor catalão alto que parecia o Professor Girafales de óculos e cabelos brancos, que estava sentado na mesa ao lado trabalhando no computador calado mas volta e meia soltando um "mierda", que quebrava o meu foco.

E a vida cá no Marrocos segue.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Dia e noite na medina, e a comida no Marrocos

Veja uma versão de melhor visualização deste post no novo site, em:

Minha mãe sempre tirou com a minha cara (literalmente) dizendo que eu tenho nariz semita. Não sou antissemita, mas nunca curti muito a ideia. Seja como for, eu pelo visto passo direitinho por marroquino. Ninguém mexe comigo na medina, ao contrário dos turistas caras-pálidas, que sofrem assédio o tempo todo. Eu outro dia perguntei a uma senhora aqui se era por causa da minha barba, ela disse que não, que era "porque você tem assim uma cara de berbere", disse ela gesticulando e fazendo aquele olhar intenso de quem estava analisando a minha face.

Tá bom, né. Pra quem não sabe, os berberes são os povos nativos aqui das montanhas do norte da África, que já habitavam a região antes da chegada dos árabes no século VII. Hoje há uma mistura, mas ainda há comunidades tradicionais berberes que falam seu próprio idioma e têm seus hábitos próprios, apesar de terem todos se convertido ao Islã.

Pena eu não saber falar árabe. O disfarce se quebra logo que eu abro a boca, já que falo em francês quando quero me comunicar com eles. Ou quando estou em grupo. Outro dia saí com uns brasileiros, um deles um belo-horizontino vestido com a camisa do Atlético Mineiro, e aí foi a festa. Os marroquinos até hoje comemoram a vitória do Raja Casablanca sobre o Atlético no Mundial de Clubes de 2013. A cada segundo alguém gritava "Galo!" e "Chupa, maria!", que eu não sabia mas é a zoação dos atleticanos em cima dos cruzeirenses. Os marroquinos aprenderam direitinho e gritam com gosto mesmo, com aquele sorrisão no rosto (embora provavelmente não façam ideia do que significa). Só quem não gostou foi uma paulista chamada Maria que estava no grupo.

A medina é assim, muvuca o dia inteiro. Circulamos por um mundo de lojas. Os principais produtos aqui são couro, tecidos, lamparinas, tapetes, e óleo de argan, que é uma semente da região cujo óleo está super na moda -- dizem que é bom pro cabelo, pra a pele, e até na comida. E o que não falta é gente querendo te passar gato por lebre. Ontem fui comprar do tal óleo, a tia me jurando que era 100% puro, e no próprio rótulo vinha dizendo que havia óleo de parafina misturado. Só que nem tudo tem rótulo, então prepare-se para vendedor querendo te passar tecido sintético como sendo seda, etc.
Loja de tecidos, e o rapaz com a camisa do galo.

"Isto aqui é algodão com linho!", me dizia ele na maior cara de pau. Além disso, tudo é supostamente feito à mão. Você que seja trouxa de acreditar em tudo que eles dizem. Ontem eu tive que rir na cara do vendedor quando ele quis me vender algo de caxemira, dizendo que era típico daqui, e eu perguntei se não era da Índia. Ele, com uma performance digna de Oscar, me respondeu sério: "Certa vez veio uma indiana aqui. Ela viu, gostou, fotografou -- e nisso ele ia fazendo a cara da suposta indiana -- aí de repente eles começaram a fazer lá na Índia também. Você vê, é como os chineses, que copiaram a tecnologia alemã e agora fazem imitações mais baratas.". Não consegui ficar sem rir, e ele me olhando sério. Queria me cobrar 50 reais num chale que na Europa eu acho, importado, por 30.
Lamparinas mil.
Enfim, tudo aqui é na barganha, e você precisa ficar esperto pra não levar gato por lebre. Só nem perca seu tempo com os quartzos coloridos, que são pintados, e nem com os (esse os meus colegas biólogos vão gostar) fósseis de trilobita, esses sim feitos à mão, porque não são originais nem aqui nem na China.
Supostos fósseis de trilobita à venda, aquelas rodinhas cor de areia. (Pra quem não sabe, os trilobitas eram artrópodes da Era Paleozóica, de antes do surgimento dos dinossauros, e seus fósseis estão à venda aqui assim, é claro). 

Enquanto nos becos da medina o comércio corre solto, na Praça Djemaa El-Fnaa dominam as atrações populares, bem a là circo de rua. É tanto que a praça, apesar de visualmente não ser nada especial, foi tombada pela UNESCO em 2001 como patrimônio imaterial e oral da humanidade.

Pena que não dê pra entender muito, mas você vê tiozinhos contando "causos" e histórias, que segundo dizem são os mesmos há séculos. Há também os encantadores de serpente, músicos, homens vestidos de mulher fazendo dança do ventre, e toda sorte de espetáculo de rua. A praça fica repleta de rodinhas de gente com algo acontecendo.
Tiozinho tocando a corneta, e a naja ali no meio. Havia outras na caixa. Às vezes ele puxava um dos meninos pra chegar perto, mas os meninos não chegavam nem a pau.
Vendedor de óleos, temperos, lagartos de borracha, e sabe-se lá mais o quê.
Povão rumando para a praça já no cair da tarde.

Quando chegaa noite, a muvuca aumenta. Eles montam dezenas de barracas de comida, e sobe aquele fumacê com cheiro de churrasquinho.
Imagine você ali no meio.
Tiozinho limpando o suor da testa, que certamente vai para salgar o frango.
Roda de viola que não é de samba.
Algum jogo de pegar as tampinhas das garrafas com o anzol.
Tiozinho animado servindo caracois cozidos. (Aquilo marrom ali que você está vendo não é amendoim, tolinho).

Mas eu fiquei de falar das comidas daqui. As pessoas ficaram se perguntando o que eu estava comendo naquela foto inicial do post anterior. Aquilo era um figo da Índia, uma fruta roxa do tamanho de um figo, mas com textura de goiaba por dentro (cheia de caroços pequenos no meio da polpa) e meio azeda. Os dentes ficam lindos. Aqui na praça é cheio de carrinhos-de-mão vendendo.
A fruta dá nesse cacto aí, e se come sem a casca. O tiozinho corta com uma navalha e te dá o interior enfiado num palito.

Teve quem pensasse que eu estava comendo kibe. Na verdade, eu não vi nenhum sinal de kibe nem de esfirra por aqui. Se é que essas são mesmo comidas árabes (e não invenções brasileiras), são lá do lado sírio-libanês, no Oriente Médio. Aqui nem sinal. O que muito tem aqui é cuscuz, que no norte da África é feito de semolina (trigo moído) em vez de milho como no Brasil. Você come misturado com caldo e verduras ou carne no almoço.

Além disso, eles servem muito o tajine, que é um cozidão de qualquer coisa na panela de barro. Tem tajine de verdura, de frango, de carne, do que você quiser.
Cuscuz com verduras, e a coca-cola em árabe.
Garçom servindo o tajine. Vem num prato de barro com aquela tampa cônica.
Tajine de legumes, pão (que aqui sempre acompanha as refeições), e suco de laranja, também bastante comum.

O gosto é meio insosso, se você quer que eu seja franco. Tem gosto de verdura fervida no sal, e o tempero passa looooonge. Talvez os de carne sejam mais saborosos. Aqui é típico comer cabeça de carneiro, que vem inteira e é uma iguaria marroquina, mas esses pratos vocês vão ter que descobrir por conta própria.

O que eu peço muito são os grãos. Achei uma birosca perto da praça onde almoço por 4 reais. Há umas lentilhas bem temperadas e feijão branco no caldo. O naipe do lugar faz você se arrepiar, mas até agora não tive dor de barriga.
Birosca onde eu almoço.
Aqui o povão almoça de mão mesmo, mas o tio me dá uma colher ou garfo. Turista passa longe.
Meu cuscuz com feijão de cada dia. Ali no meio do feijão é azeitona.

Aqui todo lugar que se preze te oferecerá, de graça, o chá de menta típico marroquino após o almoço. Foi o que mais gostei em matéria alimentar aqui no Marrocos até agora. O chá é uma mistura de menta fresca com sálvia e jasmin, vem já adoçado e é uma beleza. Não vi pra comprar; eles fazem no dia. E o melhor é que, segundo o hábito, você tem que ir distanciando o bule do copo, e servir igual Cataratas do Iguaçu. Esse tio aí, sem brincadeira, consegue 1 metro de distância. Ele abaixa o copo com a mão esquerda, suspende o bule até onde pode com a mão direita, e não erra. Ainda consigo uma foto.
O chazinho de menta no copo de pinga depois do almoço é tudo de bom.

Já o café, meu filho, esqueça. Café aqui é azedo pra burro, ralo, e às vezes misturado com chicória. Não estou brincando. A ideia é fazer render. Pra quem não sabe, a chicória é uma raiz. Dizem que é bom para a saúde, mas no café fica horrível.

Em termos de bebidas, opte pelo suco de laranja, que aqui você acha por toda parte a 1 real. É fresco, feito na hora, mas servido naquelo copinho de vidro melado, que o cara pega com a mesma mão que recebe o dinheiro. Mas é saboroso. E depois de estar meses na Europa, limitado a suco de laranja pasteurizado de garrafa, esse natural vem a calhar.
Vendedor de suco de laranja fazendo pose.

Por fim, o que você também encontra muito são frutas secas, sobretudo tâmaras e damascos (abricós). São relativamente baratos, mas você precisa procurar bem ou será esfaqueado na praça, onde eles chegam a te cobrar R$70/kg por algumas. Os damascos não diferem muito do que se acha na Europa ou no Brasil. Já as tâmaras secas, incomuns no Brasil, são deliciosas e bem doces.
Tâmaras e damascos secos, de diversos tipos. À direita dos damascos (os amarelos), há também figos.

Os vendedores aqui sempre te chamam quando você passa, e te oferecem pra degustar. Eu, claro, experimentei. Aí já veio ele empolgado se adiantando:

- "Tem essa caixa de 1 kilo, e essa outra de meio kilo, qual você vai querer?".
- "Não não, só tô experimentando, não quero levar agora não".
Aí ele me olhou com aquela cara de "filho da mãe, degustou e não vai comprar".
- "Você é argelino?", me perguntou ele. (Nota: os argelinos e os marroquinos não se dão lá muito bem, e a fronteira até é fechada).
- Não, sou brasileiro. A gente se vê.

E me despedi dele. Aqui se você der corda o vendedor te segura até você comprar.

Eles aqui às vezes ficam p*tos com esse hábito brasileiro de chegar, fazer aquela social, e não levar nada. Quem manda eles acharem que todo turista é trouxa?

Bom, a saga continua. No próximo post falo sobre os monumentos em Marrakech. Há bastante coisa bonita.
Palmeiras na praça à noite, com o minarete da Mesquita de Koutoubia ao fundo.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Pra cá de Marrakech: Bem vindos ao Marrocos

Exposição da minha figura na medina.

34 graus. Um calor da moléstia em Marrakech, como o brilho na minha testa aí não esconde. Estamos no final do inverno marroquino. Entre um parágrafo e outro, espio as moçoilas -- brasileiras e estrangeiras -- tomarem banho na piscina do nosso albergue, um belo casarão mouro escondido no meio da medina.

Quando você sai do aeroporto e pega o ônibus em direção ao centro, parece que está viajando pelo sertão nordestino. Tudo é seco, cheio de pedregulhos. As casas cor de telha são pobres e as calçadas, quebradas. O solão encandeia a sua vista e, no ônibus, você começa a suar. As pessoas do lado de fora parecem simples e sem grandes requintes, e entre uma motoca e outra você avista uma carroça.

Só que aí você começa a reparar na arquitetura mourisca das casas maiores e de algumas torres. Mesquitas com minaretes aqui e ali. E, cedo ou tarde, você nota a Cordilheira do Atlas mais atrás, com seus picos nevados junto daquela paisagem nordestina.
Vista de Marrakech, sem uma nuvem no céu e com a Cordilheira do Atlas ao fundo.

Cheguei após uma breve noite em Lisboa. Foi o suficiente pra matar a saudade dos bolinhos de bacalhau, dos pasteis de Belém, e das graças da língua portuguesa -- no avião havia um português jogando "sopa de letras" (caça-palavras), e ao retirar a bagagem assisti a uma entrevista com Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto comentando a demissão do técnico.

Um curto voo de 1:40h separa Lisboa de Marrakech, que não é a capital (Rabat) nem a maior cidade do Marrocos (Casablanca), mas é facilmente a mais turística do país e uma das mais interessantes.
Primeiro passo: o formulário de imigração em árabe, francês e inglês que você recebe no avião. O francês é a segunda língua mais usada do país, depois do árabe.
Aeroporto de Menara, em Marrakech.
O aeroporto não é grande, mas prepare-se para passar uma boa meia hora na fila da imigração. O serviço é lento como a peste, lentidão agravada por muitos jovens europeus (acostumados a circular pela Europa sem burocracia e até sem passaporte) que se atrapalham no preenchimento do formulário, ou que chegam no guichê sem tê-lo preenchido. E alguns ainda querem que os marroquinos falem todas as línguas. Na fila ao meu lado, um rapaz espanhol reclamava em castelhano querendo que o oficial de imigração marroquino o entendesse.

Já na fila do outro lado, uma jovem clara, também europeia, posava com uma bela mini-blusa, barriguita de fora, calça collant, olhar provocante e ar de lolita. E eu imaginando o que os homens daqui, já machistas e acostumados a mulheres cheias de pano, devem pensar. Não estou dizendo que eles estão certos, mas estou apontando a inconsequência e falta de tato social das pessoas.

Seja como for, ambas as filas, tanto a do espanhol quanto a da lolita, pareciam andar mais rápido que a minha. Atrás, um tio de bigodinho -- que parecia uma versão menos sorridente do Khaled vestido em uniforme policial -- supervisionava a manada. Mas apesar da demora, passei sem problemas. Quando você chega nas malas, a esteira até já parou de rolar e elas estão lá só esperando você.

Em tese, haveria também alguém do albergue esperando por mim para me levar, mas é claro que não havia. Ninguém havia confirmado a minha solicitação -- que eles oferecem --, e o jeito foi pegar o ônibus comum e achar o caminho por conta própria.

Pra começar, o motorista do ônibus me largou no ponto errado.
Ruas por onde íamos passado. Foto tirada da janela do ônibus. Muitos lugares com cara de boteco.

Em Marrakech, a principal referência é a Praça Djemaa El-Fnaa, coração do centro antigo. Era lá o meu primeiro destino, pra então tentar seguir o meu mapinha e encontrar o albergue no meio da medina. Perguntei ao motorista se a praça era a parada final, e ele, um gordinho de bigode, disse que sim. Quase meia hora depois, ele me chama, em francês:

Ele: "Você não desceu?"
Eu: "Não. Você não disse que era a última parada?"
Ele: "Nããão, eu disse que era a primeira parada"
Eu olho pra ele com aquela cara. (E juro que minha pronúncia não é nada tão terrível que o faça confundir dernier com premier).
Ele: "Mas daqui dá pra ir. Uns 20 minutos de caminhada, siga aí por dentro da medina, e você chega lá na praça"

Que outra opção eu tinha? Peguei a minha mochila e saltei.
Eis onde o ônibus do me largou.
O ambiente é tudo o que você imagina e mais um pouco. Calor de 30 e tantos graus às duas horas da tarde, e o cheirão de feira-livre, de verdura passada e água suja no chão, adicionado a muita urina evaporada. De quebra, as motos, bicicletas e carroças zigue-zagueando em meio às pessoas.

Medina, lá vou eu, pelo becos e ruelas em direção à praça central, Djemaa El-Fnaa.
Centrão de Marrakech, onde meu caminho começou após descer do ônibus.
Medina adentro, rumo à Praça Djemaa El-Fnaa.
E as ruelas da medina.




Frangos.





Conforme você vai se aproximando da Praça, a medina vai ficando mais turística. É um grande mercadão, por vezes coberto, por vezes a céu aberto, onde você facilmente se perde. Esqueça esse negócio de nome de rua. O máximo que você acha aqui são umas plaquetas ocasionais te indicando a direção da praça principal, e só.

Depois de muito expor a minha figura na medina, achei a praça. Djemaa El-Fnaa não é exatamente uma praça arborizada estilo cartão postal, mas um grande calçadão aberto e cheio de barracas, vendedores ambulantes e artistas de rua. À noite então, você aqui tem desde encantadores de serpente até palhaços (ou você vai me dizer que nunca tinha imaginado palhaços árabes?).
Praça Djemaa El-Fnaa à tarde.
Olha o solão.
O suor já me escorria, e a ponchete de dinheiro escondida debaixo da roupa já estava encharcada. Acho que a moça do albergue nunca se perguntou por que as notas de euro, já secas, estavam todas tortas e empenadas.

Mas quem disse que de lá foi fácil achar o caminho? O restaurante que serviria de direção para eu saber qual ruela tomar, simplesmente não existia mais. Pegou fogo. Só que, é claro, isso eu não sabia. Rodei por mais de uma hora procurando, e nada. Ofertas de ajuda não faltavam, mas eram todas suspeitas: 15 reais pra lhe indicarem onde fica a rua. Aqui quase todo mundo cobra por coisas que no Brasil a gente faz por presteza. Isso, é óbvio, não se refere aos marroquinos em geral, mas definitivamente é o comum nas áreas turísticas. Então esteja alerta, pois o favor quase sempre vem com uma conta no final. Se estiver disposto a pagar, melhor acertar o preço no começo, pra evitar confusão.

Pra escapar disso, perguntei ao guarda. Ele me indicou sem problemas (e sem custo), e eu segui. Por sorte, eu havia visto algumas fotos do lugar na internet e tinha instruções escritas. Finalmente, entre becos e ruelas, achei o albergue.
Gato na encruzilhada de becos.
Enfim, o albergue. Precisa ter alma de Indiana Jones pra achar.
Mas também, do lado de dentro...

Esse é o pátio interno do albergue, de onde este humilde viajante vos escreve. Esses pátios internos com fontes e às vezes jardins são típicos árabes, tradição depois passada aos espanhois e portugueses. (Pra quem acha que custa uma fortuna, saiba que a noite aqui pode sair a menos de 35 reais).

Neste exato momento, o muezim ecoa pela cidade chamando os fiéis para a oração final da sexta-feira, que é o dia mais importante no Islã (como o domingo é para os cristãos).

Será um mês aqui em Marrakech, em princípio a trabalho, mas é claro que também para conhecer o lugar. Então, aguardem as histórias.